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Uma nova universidade está sendo pensada... e implantada

Entrevista com Naomar Monteiro Filho, reitor da Universidade Federal do Sul da Bahia
“O aluno não precisará sair de sua cidade para a UFSB”
Naomar Monteiro de Almeida Filho, médico de Itabuna, ex-reitor da Universidade Federal da Bahia e hoje Reitor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), ao abordar o sistema de colégios universitários.
Naomar deu entrevista exclusiva ao jornalista Marcel Leal no programa Mesa Pra Dois (quartas, 15h), na rádio Morena FM 98.7, onde falou de seus planos para a UFSB, como serão os cursos (montados de uma maneira inovadora) e quais poderão ser cursados na universidade. A entrevista foi publicada pelo Jornal "A Região". A entrevista é de 24 de agosto.
A UFBA é antiga e tinha seus problemas. Como foi ser reitor por lá?
Assumi a reitoria em 2002. Tivemos constante crescimento, mas no serviço público federal há muitos descompassos. As vezes tem recursos e não tem projetos, ou vice-versa. Mas fizemos algumas “mágicas”, porque a equipe está muito focada na expansão de vagas.
Entrei na UFBA no curso de medicina em 1969 com 3.600 vagas. E na reitoria encontrei o mesmo numero de vagas. Então expandimos para o interior e aconteceu uma coisa interessante. Descobrimos que a interiorização exclui a população do interior. Na UESC, por exemplo, a maioria é de fora.
Você acha que existe demanda para uma universidade federal na região?
Fizemos um estudo de contexto, conheci todos os municípios do interior, conversamos com muita gente e notamos que há uma queda de horizonte. Muitos jovens não entram na universidade porque acham que não tem chance e que não existem vagas. E tem a questão da mobilidade.
Por isso a ideia dos colégios universitários. Como funcionam?
Ao invés de facilitar a mobilidade dos alunos para vir à universidade, é mais econômico e viável fazer a universidade ir aos alunos. As três sedes, Itabuna, Teixeira de Freitas e Porto Seguro, vão coordenar uma rede de unidades em municípios com mais de 20 mil habitantes.
É o regime de ciclos. Nesta fase inicial eles não precisam sair de onde moram e só vão competir pelas vagas com colegas da localidade. Isso melhora também o índice de acesso.
As cidades que estão capacitadas são as que têm ao menos 300 egressos do ensino médio e vamos oferecer um mínimo de 100 vagas em cada Colégio Universitário. Fizemos o mapeamento e temos já 33 cidades. Só em torno de Itabuna são 11.
Isso não impede que qualquer jovem que queira entrar diretamente o faça. Haverá seleção direta para os três municípios da UFSB, com 1.500 vagas pelo Enem.
Tem uma nota mínima do Enem para o ingresso?
Tem, mas nem todos que tem nota acima vão poder entrar. Na lógica que colocamos, para cada três candidatos, uma vaga vai significar que é o terço superior do corte do Enem, ou 66,66.
Existe muita diferença na universidade de ontem e hoje?
As universidades hoje têm se tornados profissionalizantes e técnicas. Deixaram de lado a formação filosófica, a humanidade, a língua. Então qualquer pessoa hoje pode se formar sem passar pela literatura, por exemplo.
Antigamente as universidades debatiam mais, não é?
Esse modelo se perdeu. Hoje as universidades são grandes colégios de formação profissional. O modelo dos colégios universitários hoje é resgatar essa formação humanística universitária.
Então a UFSB será diferente?
Uma das justificativas para os ciclos iniciais é a introdução na cultura, na linguagem, na civilização, no sentido contemporâneo, com acesso ao mundo digital. Nem todos tem a possibilidade de aprender isso. A área jurídica, por exemplo, é mais informatizada.
Por outro lado, tem profissão tecnológica em que o sujeito não sabe escrever. Um engenheiro, ou até mesmo um diagnostico medico, nem sempre escreve bem. Precisamos recuperar essa lacuna. E nos ciclos de bacharelados interdisciplinares a ideia é que o aluno possa escolher e mudar de curso.
Como vai ter professores para tantos colégios universitários?
Os colégios universitários vão ampliar muito a inclusão digital. O professor não vai precisar estar lá, seria impraticável. Serão 36 portais de acesso e a gente vai usar a Rede Nacional de Pesquisa de alta velocidade, 10 vezes mais rápida.
Temos acesso porque é uma rede direta com as universidades federais, que vai interligar os municípios. Vamos investir para que todas as cidades que tenham o colégio universitário tenham uma rede sem fio aberta. Aquele aluno que perder a aula pode, à noite, baixar e recuperar pela internet.
Os cursos serão os mesmo da UESC?
Não. Os alunos podem entrar em quatro bacharelados básicos: humanidade, arte, ciência e tecnologia, saúde. Esse curso de bacharelado dura três anos e o aluno ganha o diploma que lhe permite ocupar postos de trabalho que exigem fundamento da área tecnológica.
Com esse diploma, ele postula a entrada no segundo ciclo, quando vai se tornar engenheiro, por exemplo, ou fazer teatro, cinema, etc.
Hoje temos carência de cursos tecnológicos...
Os cursos de Itabuna vão ser mais focados nessa área. Chegamos à conclusão de que o que a UESC faz bem, vai continuar fazendo. O que pudermos trazer de diferente, será uma prioridade. Itabuna ficará com o Centro de Formação em Ciências e Tecnologia e o de Comunicação e Arte.
Para arte, por exemplo, o curso principal será o de musica. O maestro Ricardo Castro será o curador. Em Porto Seguro ficará o Centro de Formação em Humanas e Sociais e o de Ciências Ambientais. Em Teixeira de Freitas, uma área que não tem cobertura, ficará com formação em Saúde.
O modelo do colégio universitário permitirá que o aluno de Coaraci, por exemplo, entre na universidade sem sair de sua cidade, mas se tiver o desempenho necessário, virá para Itabuna fazer o bacharelado interdisciplinar e aqui escolhe um dos quatro cursos. É um desenho inédito.
Para que lado a UFSB deverá ser construída?
Tivemos uma sorte histórica em conseguir o antigo centro de formação da Rede Messias em Ferradas. Uma qualidade estrutural muito boa, que a prefeitura alugou para longa duração. Fizemos uma proposta ao prefeito. O modelo de campo que vamos estabelecer é o ecológico sustentável.
Não queremos desperdiçar espaço com estacionamento e transporte individual. A proposta é urbanizar a beira do rio de Ferradas até a Mangabinha, com uma ciclovia e uma trilha para o transporte de bicicleta, que pertence à universidade. O aluno pega num dia e devolve no outro. A área que estamos em vista é a do antigo aeroporto, para o estacionamento na cidade.
Já temos data para o início das aulas?
Marquei data e disse que começaremos no dia 8 de setembro de 2014. A equipe já está chegando. No dia 20 de setembro vamos instalar o Conselho Universitário e temos visitado as escolas de nível médio para implantação de colégios universitários nos pavilhões ociosos.
Teremos 617 professores e 624 servidores técnicos-administrativos. Cerca de 250 são de nível superior. A seleção já começou e de um modo inovador. Lançamos no site quatro chamadas públicas e qualquer docente da rede federal de educação superior pode se candidatar.
Tem muitos grapiunas de fora querendo voltar. É uma oportunidade. Um conceito nosso é de que os alunos de cada ano sejam tutores dos novos alunos. O modelo é trazer o profissional experiente junto com seu grupo de pesquisa e seu programa de pós-gradução.
A chamada número quatro é restrita a professor adjunto e titular, que exige doutorado. Temos inscrições muito interessantes. No ano que vem a ideia é atrair 150 docentes.

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