quarta-feira, 22 de maio de 2013

Uma lista de 40 livros para ler antes de morrer

Por Carlos Willian Leite
Depois da polêmica sobre os Livros Para Morrer Antes de Ler, convidei leitores, amigos do Fa­cebook, e seguidores do Twitter — escritores, jornalistas e professores — à responder a pergunta inversa. Se aqueles eram os piores livros (Para Morrer Antes de Ler), quais seriam os melhores (Para Ler Antes de Morrer)? Cada participante poderia indicar entre um e dez livros de autores, de todas as épocas, brasileiros ou estrangeiros, tendo como critério principal o gosto pessoal, não importando se um determinado livro era canonizado ou desconhecido, descartável ou duradouro. Discutível como todas as listas de melhores, esta também não pretende ser abrangente e provavelmente se tivesse sido, ou for feita em outra ocasião,  o resultado seria diferente. Ela apenas reflete a opinião, do momento, dos participantes convidados. E os livros citados por eles, bons ou ruins, trazem em comum o fato de tê-los inspirado. E como escreveu Harold Bloom: “Todo mundo tem ou deveria ter uma lista de obras que lhe serviriam de companhia numa ilha deserta.” Abaixo, em ordem de aleatória, os 40 livros escolhidos, sem repetir autores.
Guerra e Paz - Liev Tolstói
On the Road - Jack Kerouac
Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa 
As Viagens de Gulliver - Jonathan Swift 
Dom Quixote - Miguel de Cervantes 
Robinson Crusoé - Daniel Defoe 
Em Busca do Tempo Perdido - Marcel Proust 
Moby Dick - Herman Melville 
O Processo - Franz Kafka 
Livro do Desassossego - Fernando Pessoa 
Os Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski          
Coração das Trevas - Joseph Conrad 
A Divina Comédia - Dante Alighieri 
Hamlet - William Shakespeare
Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis 
Pergunte ao Pó - John Fante 
Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez            
A Montanha Mágica - Thomas Mann 
O Complexo de Portnoy - Philip Roth 
O Som e a Fúria - William Faulkner 
Folhas de Relva - Walt Whitman 
Os Miseráveis - Victor Hugo
1984 - George Orwell            
Desonra - J. M. Coetzee 
O Homem Sem Qualidades - Robert Musil 
Orgulho e Preconceito - Jane Austen 
Ulisses - James Joyce 
A Terra Devastada - T.S. Eliot 
Apanhador no Campo de Centeio - J. D. Salinger
O Príncipe - Maquiavel 
Os Sertões - Euclides da Cunha      
O Velho e o Mar - Ernest Hemingway 
Ficções - Jorge Luís Borges 
Histórias de Cronópios e de Famas - Julio Cortázar 
Madame Bovary - Gustave Flaubert            
Odisseia - Homero 
Meridiano de Sangue - Cormac McCarthy
Fausto -  Goethe 
Lolita - Vladimir Nabókov            
O Tempo e o Vento - Erico Verissimo

A questão da saída para o mar da Bolívia

Por Marco Antonio L.
Cansado de enfatizar a necessidade de um diálogo com o Chile para resolver de maneira bilateral o tema de uma saída soberana ao mar, o governo boliviano decidiu apresentar uma demanda ante a Corte Internacional de Justiça de Haia, na Holanda.
A determinação foi o fruto de uma política muito bem meditada do Executivo, com reiterações constantes de que apelaria a tribunais internacionais caso não prosperassem os chamados às conversas entre os dois países vizinhos.
Em 14 de fevereiro, com motivo das celebrações pelo Dia do Mar, o presidente Evo Morales advertiu que a Bolívia jamais cederia em suas intenções de voltar ao oceano Pacífico com soberania, ainda que também não tenha fechado a porta a um diálogo sobre o tema com o governo de Sebastián Piñera.
Nessa data comemorou-se o 134° aniversário da invasão chilena de 1879, depois da qual Bolívia perdeu 120 mil quilômetros de territórios ricos em minerais, sobretudo em cobre, e 400 quilômetros de costa ao referido oceano.
Morales deixou claro que seu governo está disposto a ir à mesa de negociações, apesar de que o "Chile tem vontade contrária e tem evitado dialogar e apresentar uma proposta concreta que permita negociar uma saída soberana ao mar".
"Até agora o governo chileno tem mantido uma atitude soberba, de um país que vive no passado", destacou o primeiro indígena chefe de Estado na história da Bolívia, quem se nega a aceitar que o Tratado de 1904 seja inegociável.
Morales voltou, então, a pôr o exemplo do Canal do Panamá, entregue à perpetuidade pelos panamenhos aos Estados Unidos e devolvido ao país do istmo depois dos acordos Torrijos-Carter (pelo nome dos então presidentes Omar Torrijos e James Carter).
"Bolívia nasceu à República com acesso livre e soberano ao oceano Pacífico e no Tratado de Limites de 10 de agosto de 1876 reconheceram-se os limites", pontuou que "o expansionismo de Chile se iniciou com a invasão de 14 de fevereiro de 1879 ao porto boliviano de Antofagasta".
A demanda
Uma vez que tomou a determinação de apresentar uma moção ante o Chile em Haia, o Executivo nomeou ao ex-presidente Eduardo Rodríguez Veltzé como embaixador a cargo da mesma.
Rodríguez Veltzé e o chanceler David Choquehuanca encabeçaram a delegação boliviana até a referida cidade holandesa, para apresentar a demanda marítima no dia 24 de abril, o primeiro reclamo deste tipo na história de Bolívia.
Depois de entregar os documentos para iniciar o litígio, Choquehuanca declarou a vontade da Bolívia de continuar o diálogo com o país vizinho.
Ao mesmo tempo, explicou que "a demanda foi elaborada durante mais de dois anos de trabalho pela Direção de Reivindicação Marítima, com a participação de autoridades, organizações da sociedade civil, especialistas bolivianos, contando com o concurso de especialistas do direito internacional", destacou. A queixa pede "à Corte Internacional de Justiça declare que o Chile tem a obrigação de negociar de boa fé com a Bolívia um acordo cedo e efetivo que lhe outorgue uma saída plenamente soberana ao oceano Pacífico".
"Esta solicitação não se baseia no Tratado de 1904. A Bolívia, em conformidade com as normas do direito internacional, esclarece que a presente demanda não é um ato inamistoso contra o Chile, e só procura encontrar uma saída definitiva a um centenário problema hemisférico".
Choquehuanca aclarou que "a Bolívia vai a esta via depois de esgotar todos os meios de diálogo e devido às constantes dilações dos governos chilenos".
Por outra parte, enfatiza que "a Bolívia, como país pacifista, cifra sua confiança na Corte Internacional de Justiça, à que reconhece como o mais alto tribunal estabelecido pela humanidade para a solução pacífica das controvérsias entre estados".
"Bolívia, convencida de que a paz, a amizade, a boa vizinhança e a complementariedade devem primar entre as nações, faz conhecer com dignidade, humildade e espírito integracionista sua decisão a toda a comunidade internacional a fim de que acompanhe nesta demanda o direito e a justiça que procura estabelecer".
Chile mantém sua posição
O governo chileno não demorou em manifestar que a demanda boliviana carece de objetividade, e o próprio presidente, Sebastián Piñera, deixou claro que o país do altiplano não terá uma saída ao Pacífico, tal como pretende.
Entre outras medidas, Piñera designou o embaixador nos Estados Unidos, Felipe Bulnes, como agente do país ante a Corte Internacional de Justiça para enfrentar a demanda marítima apresentada pela Bolívia.
Bulnes, com experiência como ministro de Justiça, terá que se apresentar no próximo dia 12 de junho ante o referido tribunal internacional para conhecer os prazos da Bolívia, que apresentará a chamada memória.
No entanto, movimentos sociais, estudantes e dirigentes políticos chilenos respaldam a demanda boliviana, a qual consideram justa e bem fundamentada, sobretudo porque reconhecem que seu país se apropriou de uma parte importante do território vizinho.
A querela boliviana, no entanto, acaba de começar e os procedimentos seguintes podem demorar de quatro a cinco anos, depois do que a referida Corte pedirá ao Chile que negocie com Bolívia.

Segundo analistas, a Corte de Haia não pode obrigar o Chile a nada, e só instar que se sente a dialogar para resolver de uma vez por todas o centenário conflito, e o pedido da Bolívia de ter uma saída ao Pacífico com soberania.

A vítima do moralismo seletivo da mídia é o leitor

Por Paulo Nogueira
As corporações jornalísticas ignoraram o escândalo do Supremo e prestaram um desserviço a seus leitores.
As mordomias do STF são um assunto de grande interesse público. Elas revelam como a mais alta corte do país trata o dinheiro do contribuinte.
Não existe pudor, não existe parcimônia: os juízes viajam de primeira classe, e podem levar acompanhante desde que julguem “necessário”.
Como eles fazem as regras, é tudo legal – mas imoral e abjeto.
Essas mordomias são notícia de alta importância, naturalmente.
Mas não para a mídia, excetuado o Estadão, que revelou as mamatas. E isso conta tudo sobre o farisaísmo da mídia.
Notícia é o que serve a seus interesses particulares. O resto não é notícia.
Colunistas sempre rápidos em despejar sentenças moralistas vulgares sobre seus leitores simplesmente não tiveram uma palavra para o escândalo.
Fui verificar o que tinha a dizer, por exemplo, Ricardo Noblat, em seu blog. Nada.
Fui verificar o que tinham a dizer os colunistas do site da Veja, Augusto Nunes, Ricardo Setti e Reinaldo Azevedo. Nada, nada a nada, respectivamente.
Um tratamento bem diferente mereceu Marilena Chauí por dizer verdades que cabem a eles todos, campeões do pensamento rasteiro da classe média.
Reinaldo Azevedo, ao tratar do discurso em que Chauí criticou a classe média, fez questão de levianamente, sem dados e sem nada, invocar o dinheiro que ela ganharia por conta dos livros do MEC.
Havia apenas insinuação, havia apenas maldade, havia apenas a confiança de que seu leitor é tão tapadoque vai aceitar o conto do MEC sem recibo e sem comprovação.
Tratamento bem diverso teve, do mesmo Azevedo, Maggie Thatcher. Numa eulogia disparatada, Azevedo afirmou, no grande final, que Thatcher morreu pobre.
Na pobreza de Thatcher estaria a prova suprema de suas virtudes de estadista.
Mais uma vez, Azevedo acreditou que é fácil engambelar seus leitores.
Porque apenas a casa de Thatcher na região mais nobre de Londres é avaliada em mais de 10 milhões de dólares.
Não é informação nova, e sim antiga.
Thatcher só não fez uma fortuna maior porque os problemas mentais logo a impediram, saída do cargo, de realizar palestras e dar consultoria a empresas como a Philip Morris.
O filho de Thatcher, Mark, amealhou uma considerável fortuna com comissões de grandes negócios feitos pelo governo da mãe com outros países.
Mas Thatcher morreu pobre no Planeta Azevedo, e Marilena, ela sim, é rica.
Moralismo, quando é seletivo, é hipocrisia mistura a cinismo. Destina-se não a corrigir desvios éticos, mas a tirar proveito da boa fé dos chamados inocentes úteis.

O escândalo do STF, ignorado pela mídia, é apenas mais uma página de um conjunto de atitudes em que a vítima é a sociedade.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Barbosa e as mordomias do STF

Por Ricardo Kotscho
Na mesma segunda-feira em que o "Estadão" rompia a cortina de silêncio que protege o Judiciário de críticas, ao revelar as mordomias aéreas dos meritíssimos ministros, em reportagem de Eduardo Bresciani e Mariângela Gallucci, Joaquim Barbosa, o presidente do Supremo Tribunal Federal, atacou o Congresso Nacional pela "ineficiência, inteiramente dominado pelo Executivo" e os partidos políticos em geral, que qualificou de "mentirinha".
A surpreendente reportagem do "Estadão" conta que o STF gastou, entre 2009 e 2012, R$ 608 mil só com passagens internacionais de primeira classe para esposas de ministros e outros R$ 295,5 mil em viagens dos magistrados em períodos de recesso. Além disso, o jornal denunciou que Joaquim Barbosa viajou 19 vezes por conta do STF em períodos nos quais estava de licença médica, tendo como destinos Rio, São Paulo, Fortaleza e Salvador.
Em sua longa palestra no Instituto de Educação Superior de Brasília, onde é professor, Joaquim Barbosa, que se apresentou como uma espécie de tutor dos outros poderes, não tocou neste assunto das viagens patrocinadas pelo STF, que consumiram um total de R$ 2,2 milhões dos cofres públicos nos últimos três anos.
Não que o falante Barbosa tenha contado alguma grande novidade que todos os cidadãos já não saibam sobre o funcionamento do parlamento e dos partidos políticos ou tenha ofendido membros de outros poderes, mas estranhamente preferiu o silêncio quando foi perguntado, após a palestra, sobre viagens pagas pelo tribunal e licenças médicas.
Ao ouvir a pergunta, o presidente do STF, como tem acontecido em outras ocasiões recentes, quando é questionado, mostrou-se bastante irritado:
"Eu não quero falar sobre este assunto. Eu não li a matéria. Essa matéria é do seu conhecimento, não é do meu".
Pois deveria falar, já que se trata de uso de dinheiro público em proveito privado, embora o STF autorize este tipo de benefício, como informa a reportagem:
"O pagamento de passagens aéreas a dependentes de ministros é permitido, em viagens internacionais, por uma resolução de 2010, baseada em julgamento de um processo administrativo do ano anterior. O ato diz que as passagens devem ser de primeira classe e que este tipo de despesa deve ser arcado pela Corte quando a presença do parente for "indispensável" para o evento do qual o ministro participará".
Alguém sabia disso? Qual o critério de "indispensável"? No meu caso, por exemplo, mesmo a trabalho sempre gosto de viajar acompanhado da minha mulher, mas quem tem que pagar a passagem dela somos nós.
Na crítica aos partidos de "mentirinha" que tornam "o Congresso um poder dominado pelo Executivo", o ministro Barbosa esqueceu de dizer que o Judiciário tem grande parte de responsabilidade nesta deformação institucional, como bem lembrou, em artigo publicado na "Folha", o cientista político Humberto Dantas, professor do Insper, depois de listar vários casos em que o STF facilitou a proliferação de legendas.
"Diante de tais aspectos, não parece ser apenas o Executivo a furtar o Legislativo de seu papel. Não há no país poder mais criativo em matéria eleitoral que o Judiciário. Assim, que o professor Barbosa seja capaz de observar que o órgão que preside contribui para reforçar a `mentirinha´ chamada `partido político´.
Antes do dia acabar, a assessoria do presidente do STF distribuiu nota para dizer que Barbosa falou na condição de "acadêmico e professor" e não teve "a intenção de criticar ou emitir juízo de valor a respeito do Legislativo". Melhor assim, pois o presidente da Câmara, Henrique Alves, já tinha divulgado outra nota em que qualificou a manifestação do presidente do STF de "desrespeitosa".
O que mais me chama a atenção neste episódio é que nós estamos habituados a ver e ouvir todos os dias duras críticas sobre mordomias contra membros do Executivo e do Legislativo, em todos os níveis, mas que me lembre é a primeira vez que um veículo da grande imprensa trata desta questão no Supremo Tribunal Federal.

Se os viajantes fossem membros de outro poder, certamente a reportagem repercutiria nos demais veículos, ganharia ares de escândalo e logo alguém pediria a instalação de uma CPI.

A sardinha e as brasas

Por Mauro Santayana
Agiu bem a ministra Maria do Socorro, ao recuar da açodada insinuação de que o boato sobre a Bolsa Família partira de “uma central de boatos da Oposição”. Boatos dessa natureza costumam surgir por acaso, da imaginação de qualquer um, que os põe a circular. Eles medram em minutos e horas, e é difícil vencê-los.
Em conferência que fez há alguns anos sobre a criação literária, Garcia Márquez tratou do tema: falou do seu desejo de construir um romance a partir da brincadeira que certo açougueiro faz com uma freguesa ingênua e  provoca, em poucas horas, uma rebelião social.
Todos nós sabemos como é fácil promover uma corrida bancária. Por isso o boato sobre o Bolsa Família contaminou vários estados em tão pouco tempo: atingiu pessoas ingênuas e que dependem do subsídio federal para navegar o seu mês. É mais provável que o rumor tenha surgido assim, como certos incêndios se iniciam com raios  de sol concentrados por um caco de vidro.
Ao acreditar que tenha havido intenção política na invencionice, é melhor atribuí-la a outro tipo de oposição, que não seja a político-partidária. Ainda que façamos de conta  que nada existe, convém remontar há tempos antigos, mas historicamente recentes, para saber que os inimigos externos não descansam, e começam a investir na criação de crises artificiais. São os que alimentam e adestram gatos, com o método de Pavlov, para retirar as sardinhas do braseiro. Para isso, é claro, é preciso reunir as brasas.
Estamos em momento que pede lucidez e bom senso, mas não faltam os pirotécnicos. Daqui a poucos meses, e em ano eleitoral, fará 50 anos que o presidente João Goulart foi afastado violentamente do poder que o povo, em eleições livres, lhe conferira.
Melhor seria que nos limitássemos a registrar a data, como registramos outros fatos históricos, como a Guerra de Canudos ou a Campanha da Vacina Obrigatória. Não temos por que comemorar o episódio, nem por que reacender os sentimentos dos que – além de o Brasil como um todo – sofreram pesadamente o período ditatorial. Foi, como já se sabe hoje,  movimento político, insuflado pelos estrategistas norte-americanos, dentro do contexto da Guerra Fria, contra o desenvolvimento autônomo de nosso país. Movimento político que, como outros anteriores, chegou aos quartéis mediante as chamadas vivandeiras.
Os comandantes militares do passado odiavam as vivandeiras, que abasteciam, de víveres e de boatos, os exércitos em operação, corroendo o brio moral das tropas.  Alguns oficiais que serviam em 1964, já doutrinados pelo Pentágono, ouviram as desafinadas sereias, com os resultados conhecidos. E convém registrar que inúmeros oficiais e graduados das Forças Armadas sofreram tanto quanto os civis com a repressão conhecida.
É preciso entender o que houve, com a ajuda dos historiadores e estudiosos de política, a fim de evitar outros desvios. Entender, sem açular o ódio recíproco, e sem descuidar da vigilância na defesa da liberdade.
Temos que nos preparar para novos e prováveis boatos e combatê-los com a divulgação da verdade. As eleições do ano próximo consolidarão o maior período de estabilidade constitucional de nossa República, com mais de um quarto de século de vigência da Carta de 5 de Outubro. Ainda que tenha sido submetida a emendas esdrúxulas, sobretudo na ordem econômica, e em benefício do neoliberalismo globalizador, o documento permitiu o impeachment, sem traumas, de um presidente imaturo, e a normalidade das escolhas eleitorais que se seguiram.
A retomada dos ritos democráticos de construção dos governos pela soberania popular se fez contra os extremos do espectro ideológico. O movimento de 1964 fora “contra” os espantalhos do “comunismo ateu”, e em favor da “família cristã”. Não há mais comunismo ateu e, se formos duros na análise, resta muito pouco do escasso espírito cristão que ainda havia na sociedade mundial.
Foi a articulação dos moderados, no centro da razão política, que levou as multidões às ruas e à vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral. A doença matou-o, mas não o derrotou, como o suave, mas corajoso, comandante de uma revolução política, que, para lembrar Victor Hugo, significou o fim de uma ficção para o retorno à realidade, ou seja, à soberania do povo sobre o Estado.

Boatos como esse, nascidos da  parvoíce de alguém, ou produzidos pela sabotagem de agentes externos ou internos, interessados na baderna, não nos afastarão do caminho do meio,  que duramente aprendemos a trilhar.

A pauta das fofocas na mídia

Por Luciano Martins Costa
De cada sete manchetes dos grandes jornais brasileiros ao longo de cada semana, nos últimos dois meses, cinco foram tiradas de declarações. As outras duas se referem a eventos incontornáveis como acidentes e crimes graves, decisões políticas ou judiciais ou, mais raramente, tratam de questões levantadas por institutos de pesquisa. Há poucos registros, nesse período, de reportagens produzidas por meio da investigação jornalística que tenham chegado ao topo das primeiras páginas.
O que isso significa?
Primeiro, pode-se afirmar que o jornalismo apresentado aos leitores dos diários se transformou numa crônica do processo dialético do poder, do qual a imprensa destaca aquilo que lhe parece mais interessante ou conveniente.
Em segundo lugar, deve-se registrar que o jornalismo baseado em frases tende a se afastar da suposta objetividade, que é o fundamento de seu valor social: o jornalismo declaratório é uma confissão de que o interesse dos jornais já não está ancorado no mito da objetividade, mas no propósito do convencimento.
Dos três grandes jornais considerados de circulação nacional, apenas o Globo escapa, eventualmente, desse modelo observado. No caso do jornal carioca, o olhar mais localizado tende a produzir mais notícias “puras”, geralmente tiradas de acontecimentos que interessam ao público do Rio de Janeiro. No entanto, quando tratam de questões nacionais, principalmente sobre política, todos os jornais escapam pelo caminho fácil de colher, selecionar e destacar declarações.
Curiosamente, tais declarações repetem um viés comum, produzindo ondas de notícias que são, na verdade, não-notícias.
Assim acontece com a suposta intenção do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), de vir a se candidatar a presidente da República em 2014. Da mesma forma, têm destaque assegurado quaisquer construções verbais produzidas pelo senador Aécio Neves (PSDB), cuja candidatura ao mesmo cargo é tida como certa. Com a mesma atenção os jornais acompanham manifestações da presidente da República e do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa.
Mas tudo são frases, apenas frases.
Barbosa falou, Barbosa disse.
Vamos contornar, na medida do possível, o conteúdo preferencialmente destacado pela imprensa em cada uma dessas manifestações, deixando um pouco de lado as declarações e analisando o grau de objetividade da notícia em estado “puro”.
Apanhando um acontecimento destacado pelos jornais nesta semana, sobre duas mortes ocorridas durante a Virada Cultural em São Paulo, pode-se observar que, no primeiro momento, a repercussão dos casos de violência foi inteiramente dirigida pela imprensa para supostas responsabilidades da Prefeitura da capital. Essa abordagem, mais escancarada no Estado de S.Paulo mas também assumida pela Folha de S.Paulo, ganhou rapidamente destaque em jornais de outras regiões.
Porém, já na terça-feira (21/5), os jornais reconhecem que as causas da violência podem ser múltiplas e não ter relação com os locais escolhidos para os espetáculos ou o tipo de organização adotado pela Prefeitura. O foco passou a ser uma suposta leniência dos policiais destacados para a prevenção de conflitos e assaltos, porque eles estariam descontentes com atrasos no pagamento do chamado “bico oficial” – trabalho extra da Polícia Militar para eventos de outras instituições públicas.
A violência é parte da realidade de São Paulo em qualquer contexto. A imprensa publica regularmente estatísticas demonstrando o aumento dos casos de latrocínio, estupro e outras formas de criminalidade extrema na capital paulista nos últimos dezoito meses.
As duas mortes ocorridas nas grandes aglomerações produzidas no fim de semana devem ser avaliadas em comparação com o contexto geral dos registros de ocorrências dos fins de semana, sem Virada Cultural. Mas isso faz parte de um jornalismo com intenções de objetividade, o que, definitivamente, não é o caso da imprensa brasileira.
Voltemos, então, ao jornalismo declaratório, terreno onde a imprensa nacional trafega com mais naturalidade.
O que temos de destaque nesta semana? Mais uma declaração polêmica do presidente do STF, Joaquim Barbosa. Ele disse, em palestra para universitários, que os partidos políticos brasileiros são “de mentirinha” e que o Congresso Nacional é refém do Executivo. Temos, então, uma agenda para a semana, e ela não é construída em torno de fatos, projetos, políticas públicas ou dados econômicos: a pauta essencial da imprensa é feita de fofocas.

Xisto pode "energizar o mundo", mas chegaria ao Brasil só em 2023

Por Paula Furlan

Os combustíveis alternativos vêm sendo amplamente debatidos como forma de promover o consumo sustentável e evitar o esgotamento de determinadas fontes. O gás de xisto é uma destas soluções. O xisto betuminoso é um tipo de rocha metamórfica fonte de combustível que, quando submetido a altas temperaturas, produz um óleo de composição semelhante à do petróleo do qual se extrai nafta, óleo combustível, gás liquefeito, óleo diesel e gasolina.
Os Estados Unidos e Brasil são os países com as maiores reservas mundiais de Xisto. A empresa brasileira Petrobrás desenvolveu o Processo Petrosix ® para produção de óleo de xisto em larga escala.
No debate 'O Xisto, a Geopolítica Energética e a Sustentabilidade', promovido pelo Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), em São Paulo, palestrantes concordaram que o gás não convencional é uma alternativa energética viável para o Brasil, importante para garantir e ampliar a competitividade nacional frente a outros mercados e possível de ser explorado se a gestão dos riscos ambientais for eficiente.
 "Acredito que esta rocha pode energizar o mundo", disse o vice-diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), Colombo Celso Gaeta Tassinar. O recurso natural é encontrado em rochas metamórficas localizadas a partir de 1,5 mil metros de profundidade. "Quanto mais profundas as rochas, maior o potencial."
O gás de xisto - chamado de gás de folhelho ou shale gas pelos especialistas - ganhou visibilidade no País com o anúncio da realização, nos dias 30 e 31 de outubro, do primeiro leilão de blocos pelo governo federal. Por causa da técnica utilizada para sua obtenção - o fraturamento hidráulico -, logo virou alvo de polêmica: também conhecido por fracking, ele envolve a explosão de rochas sedimentares e injeção de grande quantidade de água (cerca de 90%), areia (9%) e reagentes químicos (1%).
Um dos perigos apontados por ambientalistas é de que esse material químico poderia entrar em contato com lençóis freáticos.  "As partes críticas do poço (especialmente as que passam por lençóis) são revestidas com cimento e aço. Além disso, antes de iniciar a operação, é preciso um estudo da área em questão, levantamento ambiental, domínio das técnicas, além da existência de regulação da atividade e um protocolo de segurança", afirmou Tassinar. "A agricultura tem a mesma e até maior probabilidade de contaminação da água e do solo do que o shale gas", exemplificou citando o uso de fertilizantes e agrotóxicos nas plantações.
De acordo com agências internacionais, o Brasil teria pelo menos 6,4 trilhões de m³ de reservas recuperáveis de xisto, o que o coloca na décima posição no mercado mundial. A estimativa, porém, é considerada tímida - acredita-se que o País tenha, ao lado de Estados Unidos e China, as maiores reservas do recurso no mundo.
Segundo especialistas, risco de contaminação por xisto é mínimo. Imagem | The Wall Street Journal.Segundo um estudo da Royal Society, entidade inglesa voltada para a Ciência sobre o xisto, alguns fatos foram descobertos. "Um deles é que o risco para saúde, segurança e meio ambiente podem ser geridos de forma eficaz. Outro, que a propagação das fraturas (geradas no fracking) é improvável causa de contaminação", disse.
Contudo, a produção de gás de xisto no Brasil só será viável em 2023, caso os investimentos comecem a ser feitos já. "Demorará cerca de dez anos para a produção de gás de xisto se tornar viável", disse em seminário realizado em São Paulo. "Se não tivermos investimentos agora, daqui a dez anos não teremos recursos.Dado que toda a infraestrutura tem de ser desenvolvida, espera-se que a produção brasileira esteja disponível para consumo dentro de 10 anos", informou Affonso.
A descoberta de grandes reservas potenciais de xisto nos Estados Unidos, que estuda o gás desde a década de 1990, fez com que a produção do país tivesse grande impulso a partir de 2006. O entusiasmo gerado pela alternativa não convencional provocou uma verdadeira "corrida ao xisto" pelas empresas, o que, em última instância, chegou até a causar a proibição da atividade em alguns estados norte-americanos.
"Apesar do Brasil não ter ainda nenhum poço aberto, podemos aprender com as lições dos Estados Unidos", disse Goldemberg. "Mas temos um caminho longo pela frente, como a obtenção de EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental) em cada Estado". Para ele, um dos pontos mais sensíveis para o projeto de exploração do gás de xisto é o relatório, pois a autorização para exploração do gás em terra passa pelos Estados e não pela União.

Origem do boato sobre o Bolsa Família

Por Eduardo Guimarães
Ainda há pouco o que dizer de concreto sobre a origem do boato literalmente criminoso de que o programa Bolsa Família seria suspenso, mas, preliminarmente, pode-se tirar algumas conclusões interessantes desse episódio.
Em primeiro lugar, o fato de que o boato expôs a importância do benefício para um setor extremamente amplo da sociedade.
Para mensurar a importância do programa, basta dizer que 13 milhões de famílias (um contingente de cerca de 50 milhões de brasileiros) são beneficiadas pelo seu orçamento de quase 25 bilhões de reais.
As multidões que, angustiadas, foram arrastadas às agências da Caixa Econômica Federal pela informação falsa mostram que qualquer grupo político que, no poder, tente desidratar o programa para atender ao clamor da mídia conservadora, está fadado ao suicídio político.
Em editorial desta quarta-feira, por exemplo, o jornal Folha de São Paulo, assim como tantos outros veículos alinhados à direita do espectro político, pede que o pré-candidato tucano Aécio Neves defenda a extinção do Bolsa Família publicamente.
O texto, como de costume laudatório ao PSDB, reclama de que Aécio “Reluta, ainda, em assumir uma dicção mais liberal com denúncia ácida de seu aspecto assistencialista”.
O “ainda” contido nessa frase dá margem a muita reflexão. Sugere que aquilo que o jornal chama de “denúncia ácida” do “aspecto assistencialista” do Bolsa Família ainda ocorrerá…
Como se vê, o PSDB pode até ter um discurso de que, no poder, iria manter o Bolsa Família, mas os interesses que estão por trás desse grupo político esperam dele que interrompa o investimento de um volume tão grande de recursos só para ajudar pobres, caso vença a eleição do ano que vem.
Nesse aspecto, a comoção em torno do boato mostra que a eleição de um governo tucano poderia resultar em grave comoção social, caso programas sociais como o Bolsa Família fossem desidratados ou até extintos.
Em segundo lugar, a escolha das regiões Norte e Nordeste como alvos do boato revela clara intenção política por trás dele.
Uma das perguntas mais significativas que se faz, é a seguinte: por que só Pará, Piauí, Paraíba, Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte, Amazonas e Tocantins foram atingidos se o Bolsa Família está presente no país inteiro?
Em terceiro lugar, os meios para difusão do boato. Relatos das vítimas revelam que três instrumentos foram usados para difundi-lo: internet, telefone e “boca a boca”.
É evidente, porém, que uma população tão desassistida não iria ficar fazendo interurbanos para outros Estados para difundir a informação falsa. E tampouco teria como usar a internet em larga escala.
Uma pesquisa feita pelo Blog na internet, porém, localizou postagem em um fórum do UOL em que alguém que se diz “Filho de pai alemão e mãe finlandesa, nascido e criado no Brazil” trata de difundir o boato.
A pessoa coloca a seguinte frase em destaque:
“Tá rolando um boato de que o bolsa família vai acabar, minha empregada está preocupada”
Mais abaixo, na página, o cidadão que se diz filho de estrangeiros mostra que a tese de jornalistas da grande mídia como Ricardo Noblat de que o governo Dilma e o PT é que teriam espalhado o boato não tem a menor lógica.
O cidadão que difunde o boato afirma que sua empregada “Disse que se [o Bolsa Família] acabar nunca mais vai votar no PT” e que ele mesmo “Apesar de não votar no PT” estaria “Preocupado” por ter “Medo déla pedir aumento”
Observação: para visitar a página original da postagem basta clicar na imagem no topo do post
Como se vê, o boato não foi espalhado apenas por “boca a boca” entre gente pobre. Além da internet, telefonemas foram usados e não se imagina gente humilde fazendo ligações interurbanas para difundir a notícia falsa.
Perguntas importantes
Por que os Estados do Sul, do Sudeste e do Centro Oeste não foram atingidos pelo boato criminoso?
Quem e quantos fariam interurbanos para passar a informação falsa adiante?
Qual a motivação de pessoas como a que se diz “filho de pai alemão e mãe finlandesa” para colocar a informação falsa na internet?
Quem se beneficiaria da difusão desse boato?
É possível concluir, também, que se uma simples busca na internet permitiu a este Blog localizar alguém difundindo o boato alarmista, por certo a Polícia Federal não terá maiores dificuldades para localizar outras postagens parecidas.
As vítimas do boato também poderão ajudar a refazer seu caminho relatando quem as desinformou, que será procurado e, por sua vez, relatará quem lhe passou a informação e assim por diante, de forma a chegar na origem da farsa.
A principal conclusão que se pode extrair desse episódio, neste momento, é a de que um aparato significativo e muito dinheiro foram usados para espalhar uma informação que dificilmente interessaria ao PT e ao governo Dilma espalhar.

Direita ataca o Bolsa Família

Por Luiz Carlos Azenha
Fico imaginando qual seria a vantagem de atacar o Bolsa Família a esta altura da campanha eleitoral, se atacar o programa não rende votos junto aos beneficiários. Existe ao menos uma resposta possível: já que os votos dos beneficiários estão perdidos mesmo, usemos o programa para ganhar votos dos não-beneficiários, retomando em outros termos o debate em torno do “bolsa-esmola”. Não é de hoje que a direita identifica o Bolsa Família com “assistencialismo” ou “caça aos votos”, desconhecendo o impacto dinamizador que ele tem na economia, especialmente no Nordeste.
Convenhamos, é um prato cheio para o tradicional discurso da demonização dos pobres, que atrai parcelas crescentes da classe média e da classe média baixa, sujeitas ao bombardeio diário da grande mídia sobre o Estado que cobra muito imposto mas é perdulário e ineficiente.
Como escreveu hoje Vladimir Safatle, na Folha de S. Paulo, os liberais brasileiros nunca reclamam quando o Estado é mãe para eles; só não pode ser mãe para os mais pobres.
Vale a pena reproduzir um trecho:
Na verdade, eis aí um verdadeiro Estado-providência, mas seus filhos são apenas certos setores da burguesia nacional e da sociedade civil associada ao governo. Há dois exemplos paradigmáticos ocorridos nas últimas semanas.
Durante os últimos anos, o governo investiu mais de R$ 1 bilhão na reforma do estádio do Maracanã. Obra feita a toque de caixa devido ao calendário da Copa do Mundo. Dias atrás, ficamos sabendo que um consórcio composto pela Odebrecht e pelo onipresente empresário Eike Batista ganhou o direito de administrar o estádio por (vejam só vocês) R$ 180 milhões pagáveis em 30 anos. Ou seja, só em reformas o Estado, principalmente via BNDES, gastou mais de R$ 1 bilhão para entregar a seus filhos, por menos de 20% do valor investido, um complexo esportivo com o qual nem mesmo o mais néscio dos administradores seria capaz de perder dinheiro.
Na mesma semana, descobrimos também que o governo paulista resolveu inventar um cartão que dá R$ 1.350,00 para viciados que queiram se internar em comunidades terapêuticas cadastradas. Nada de mais, à parte o Estado acabar por financiar comunidades terapêuticas privadas, normalmente vinculadas a igrejas e com abordagens “espirituais” de atendimento psicológico bastante questionáveis, enquanto sucateia vários Caps (Centro de Atenção Psicossocial) pelo Estado.
Assim caminha o paulatino abandono da capacidade governamental de formular políticas públicas em saúde mental. Mas pelo menos alguns de seus filhos, por coincidência com grande influência nos próximos embates eleitorais, serão amparados.
Curiosamente, na mesma página, em editorial, o diário conservador elogia posturas do virtual candidato do PSDB ao Planalto, Aécio Neves, com apenas um reparo:
O líder tucano deu novos sinais de hesitação, contudo. Repetiu a saudação à bandeira petista, o Bolsa Família, declarando ser o PSDB “o partido dos programas de transferência de renda” — prova de que reluta, ainda, em assumir uma dicção mais liberal com denúncia ácida de seu aspecto assistencialista.
Registre-se que, na mesma página, a colunista Eliane Cantanhede, falando sobre “mentirinhas”, escreveu que é uma farsa a ideia de que milhões de brasileiros ascenderam socialmente nos governos Lula/Dilma:
Segundo o repórter João Carlos Magalhães, basta aplicar a inflação à “linha da miséria” (R$ 70 por mês, desde 2011) que 22,3 milhões voltam para onde estavam. E de onde, no mundo de verdade, nunca saíram.
Ou seja, o Estado-mãe de que nos falou Safatle, quando ajuda pobres, é ora assistencialista, ora produtor de propaganda enganosa.
Curiosamente, uma comentarista estreou no Viomundo falando sobre o boato em torno do fim do Bolsa Família nos seguintes termos:
O Bolsa Família é esmola, é indigno e é uma ofensa a classe média que trabalha e se esforça para ganhar a vida com descencia. Bolsa Família é vergonhoso e é claramente um projeto para garantir votos assim como outros absurdos neste país decadente.
Notem que o raciocínio implica em jogar a classe média contra os pobres. Parece mesmo que a direita brasileira elegeu requentar um velho tema eleitoral. Talvez isso ajude a explicar a quem o crime de dizer que o Bolsa Família acabou interessa…
PS do Viomundo: Dexter Rocha, que pode ser um fake, criou um perfil no Facebook só para propagar uma página que usa uma única entrevista para tentar desqualificar todo o programa, usando o senso comum que tem grande apelo mesmo entre quem um dia já dependeu de um programa social. É a ascensão social despolitizada do governo Lula cobrando seu preço…

Avanços e retrocessos na luta antimanicomial

Por Viviane Tavares

No dia 18 de maio, a principal pauta foi a luta contra a internação compulsória e as comunidades terapêuticas.
Há 35 anos, quando trabalhadores da saúde e familiares fundaram o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), foi dado início a uma das maiores conquistas da saúde no Brasil: a luta antimanicomial que deu origem à Reforma Psiquiátrica. A partir da criação do movimento ‘Por uma sociedade sem manicômios’ é que começou a ficar evidente que o modelo implementado até então não era o mais adequado.
Depois de muitas denúncias das violências praticadas nos manicômios, da questão da mercantilização da loucura, com extensa rede privada na assistência e do despreparo dos profissionais, este modelo começou a entrar em decadência. Quase uma década depois surgiu o primeiro Centro de Atenção Psicossocial no país (Caps), na cidade de São Paulo.
De acordo com o documento do Ministério da Saúde Reforma Psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil, o processo de intervenção do Hospital Anchieta, em 1989, e a criação do primeiro Caps foram dois marcos de que ‘a Reforma Psiquiátrica, não sendo apenas uma retórica, era possível e exequível’.
O dia 18 de maio surge nesse contexto para deixar registrado no calendário que essa luta não deveria ser esquecida. O Presidente Nacional da Associação Brasileira de Saúde e um dos fundadores da Reforma Psiquiátrica, Paulo Amarante, conta que a data surgiu no ano de 1987 durante o I Encontro Nacional dos Trabalhadores da Saúde Mental, na cidade de Bauru, em São Paulo.
 “O movimento começou com trabalhadores da área de saúde mental, mas depois vimos que era muito importante envolver a sociedade, levar a nossa luta para outros atores, entre os quais, os próprios pacientes, os familiares e outros atores de movimentos sociais, como os de direitos humanos e da diversidade. Por isso é importante marcar uma data especial para esta luta”, relembra.
Segundo Paulo Amarante, a ideia de manicômio passou a ser reconfigurada, não só como estabelecimento do hospício, mas do conjunto de saberes e práticas que falam sobre a loucura, a doença, saberes que são estigmatizadores, segregadores etc.
Avanços e retrocessos
Segundo o professor, esta luta está vivendo um novo capítulo agora. Entre os pontos de retrocesso estão a privatização da saúde, inclusive na área da saúde mental, com o crescente incentivo às comunidades terapêuticas, e a internação compulsória.
Por outro lado, pesquisadores e trabalhadores da área reconhecem que também houve muitos avanços: ao longo destas quase três décadas, os investimentos do Ministério da Saúde mudaram da medicalização para o tratamento, exemplo disso, é a criação dos Centros de Atenção Psicossociais (Caps), além da mudança de pensamento da população que atualmente acredita em maneiras alternativas de cuidado com os pacientes de doenças mentais.
A professora e pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Nina Soalheiro, indica também os fechamentos dos leitos de hospitais psiquiátricos como uma grande conquista.
“O Brasil tinha um parque manicomial estimulado durante o período da ditadura e financiado pelo Estado, o chamado estímulo à indústria da loucura. Depois de muitos debates e com a aprovação da lei em 2001 – Lei 10.216/ 2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica) – começa a surgir de maneira mais forte a substituição deste modelo hospitalocêntrico e de exclusão por uma rede de serviços que vai sendo configurada no país inteiro”, explica.
Paulo Amarante aponta também como conquista a grande mobilização em torno desta temática. Ele lembra que autores como Boaventura de Sousa Santos chegam a reconhecer a luta antimanicomial como um dos maiores movimentos sociais do Brasil e da América Latina.
“O mais interessante disso tudo é que a luta é um movimento, não é uma associação nem entidade. Mas tem legitimidade e representação no Conselho Nacional de Saúde e vários estaduais e municipais. Isso criou uma dimensão de participação muito grande em todo o país. Agora, o 18 de maio ficou pequeno, já falamos em semana da luta antimanicomial e até já chamamos o mês de maio de mês da luta antimanicomial”, reflete.
A importância do Caps
Com a Publicação da Portaria GM nº 3088, de 23 de dezembro de 2011, instituiu se a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) para pessoas em sofrimento decorrente de transtorno mental, consumo de crack, álcool e outras drogas no âmbito do Sistema Único de saúde (SUS).
Fazem parte da rede o Centro de Atenção Psicossocial, Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), Centros de Convivência e Cultura, Unidades de Acolhimento, leitos de atenção integral, além de outras iniciativas, como o programa De Volta para Casa, que oferece bolsas a pacientes egressos de longas internações em hospitais psiquiátricos.
Dentre estes, o Caps é considerado a principal alternativa ao modelo de manicômios. Eles são divididos em Caps dos tipos I, II e III, Capsi (para crianças e adolescentes) e Caps ad (álcool e outras drogas), de acordo com o tipo de cuidado e complexidade do caso. Atualmente, conforme dados do Ministério da Saúde, existem 1.981 Caps em todo o território nacional.
Amarante reconhece que o número de Caps aumentou, mas considera ainda insuficiente por conta da demanda. O próprio Ministério da Saúde mostra que 3% da população geral sofre com transtornos mentais severos e persistentes, ou seja, 5,7 milhões pessoas. Outras 12 milhões apresentam transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e outras drogas; e 12% da população, ou cerca de 23 milhões de pessoas, necessitam de algum atendimento em saúde mental, seja ele contínuo ou eventual. “Houve um certo desinvestimento do Estado. Mas não é particular da Saúde Mental, é do SUS como um todo. Paradoxalmente, estamos diante de um governo popular que está assumindo mais os interesses privados, como o estimulo aos planos de saúde, as filantrópicas”. (Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio EPSJV/Fiocruz)