quinta-feira, 28 de março de 2013

Brasil perde um dos seus mais importantes cientistas sociais

Por Ricardo Cavalcanti-Schiel
Faleceu por volta das 21:30 do dia 26 de março de 213, vítima de um acidente de trânsito no Km 92 da Rodovia Bandeirantes, o diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, Prof. Dr. John Manuel Monteiro, quando regressava da universidade para sua residência em São Paulo.
Historiador e antropólogo, John Monteiro foi um pioneiro na construção do campo temático da história indígena no Brasil, não apenas produzindo uma obra analítica densa e relevante, como também criando e estimulando a abertura de espaços institucionais e de interlocução acadêmica sobre o tema. Não seria exagerado dizer que foi em larga medida por conta do seu esforço dedicado que esse campo de estudos foi um dos que mais cresceu no âmbitos das ciências humanas no país desde a publicação do seu já clássico “Negros da Terra: Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo” (1994) até o momento.
Tendo tido toda sua formação acadêmica nos Estados Unidos (graduado pelo Colorado College e doutor pela Universidade de Chicago), John Monteiro carreou para o ambiente acadêmico brasileiro o horizonte do cosmopolitismo e da amplitude geográfica da curiosidade intelectual, algo que ainda hoje contrasta consideravelmente com a primazia de um enfoque quase estritamente regional no âmbito dos objetos temáticos das pesquisas sociais no Brasil. Foi professor visitante na Universidade de Michigan, na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e na Universidade de Harvard. Era professor titular da Unicamp e assumiu recentemente a direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
John Monteiro foi o responsável pela formação de uma geração de pesquisadores brasileiros instigados pela reflexão sobre a possibilidade e os significados de se pensar os índios na história e uma história dos índios. Sobretudo no Brasil. Mas também interessados em confrontar a reflexão sistemática empreendida neste campo em outras partes do mundo. Como consequência, não só brasileiros como também muitos latinoamericanos vieram buscar sua interlocução e orientação científica, e ele acolheu pesquisas e pesquisadores da Índia Portuguesa aos Andes, do México ao Chile. Mais que apenas uma obra que tenha eventualmente congregado seguidores, John Monteiro deixa como legado uma agenda intelectual que conta seguramente com muitos cúmplices, da academia ao campo indigenista, do Brasil ao resto do mundo.
Em 1999 participou como um dos autores de uma das mais importantes obras das últimas décadas sobre a história indígena nas Américas, a “Cambridge History of the Native Peoples of the Americas”. John Monteiro faleceu no momento em que provavelmente se encontrava no auge da sua carreira acadêmica e intelectual, e aí permaneceria ainda por muitos anos. Seu corpo será velado a partir das 9:00 de amanhã (28 de março) na nova extensão da biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, e posteriormente será cremado pela família.

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