quarta-feira, 29 de maio de 2013

Pesquisa estuda degradação do trabalho na produção de celulose

Análise põe em xeque economia verde e sustentabilidade
A pesquisa de doutorado ‘Pilhagem territorial e degradação do trabalho nos novos espaços da produção de celulose no Brasil’, de Guilherme Marini perpetua, orientado por Antonio Thomaz Junior, da Unesp de Presidente Prudente, parte de três constatações essenciais.
A primeira é a de que, atualmente está em curso um intenso movimento de transferência das etapas iniciais da cadeia produtiva da celulose e do papel em âmbito internacional, partindo dos países tradicionalmente produtores do Hemisfério Norte para o Sul, desencadeado pela busca da redução dos custos de produção e por contornar restrições impostas pelas legislações trabalhista e ambiental nos países centrais.
Em segundo lugar, verifica-se que, internamente ao Brasil, também tem ocorrido um movimento de relocalização produtiva, na medida em que as novas plantas fabris do segmento da celulose e papel estão se instalando e se transferindo, preferencialmente, para novos espaços, mais distantes do centro dinâmico da economia nacional (Sudeste), e sem nenhuma tradição nesse tipo de atividade.
São os casos dos estados do Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí, que atraem os investidores devido principalmente às vantagens comparativas quanto ao preço da terra, uma vez que cada megaprojeto requer centenas de milhares de hectares de terra para a formação de bases contíguas de monocultivo de árvores – principalmente as espécies do gênero Eucalyptus.  Outro fator locacional importante é a presença de mananciais abundantes de água, necessários tanto para o cultivo do eucalipto quanto para o processamento industrial.
“Finalmente, constatamos em pesquisa anterior que as empresas utilizam-se em grande medida do receituário pragmático do regime de acumulação flexível, impondo vínculos e condições de trabalho extremamente precários e degradantes aos trabalhadores, fato que tem resultado em constantes levantes e paralisações nas áreas pesquisadas.”, diz Perpetua.
O objetivo da pesquisa é compreender a dinâmica geográfica do trabalho na produção de celulose e papel no Brasil, e sua articulação com o movimento global do setor na contemporaneidade, por meio da análise da apropriação e exploração da natureza e da força de trabalho.
“Para tanto, buscaremos combinar metodologias de pesquisa quantitativa (dados secundários) com metodologias qualitativas (observação participante e realização de entrevistas semiestruturadas), atribuindo grande importância ao trabalho de campo nas áreas estudadas, quais sejam, os mais novos enclaves do monocultivo do eucalipto e da produção de celulose e papel no território brasileiro (Leste de Mato Grosso do Sul, Sul de Tocantins, Sul da Bahia, Oeste do Maranhão e Oeste do Piauí)”, conta o doutorando.
Como referencial teórico serão adotados autores que se fundamentam no materialismo histórico e dialético, que nos permita compreender os fenômenos estudados como parte da incontrolabilidade e irreformabilidade sistêmicas do sociometabolismo do capital na era da mundialização.
“Ainda que em estágio inicial, esperamos que a pesquisa ofereça elementos para um debate crítico acerca, especialmente no que diz respeito à discussão sobre a falácia da economia verde e da sustentabilidade que envolvem as atividades econômicas em torno do monocultivo de eucalipto e da produção de celulose e papel, como forma de legitimar os desastres ambientais e os descumprimentos sociais e laborais”, aponta Perpetua.
O trabalho foi apresentado no Simpósio Internacional 'Questões do Trabalho, Ambientais e da Saúde do Trabalhador', que ocorreu entre os dias 15 e 17 de maio na Unesp de Presidente Prudente.
O evento foi organizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas do Trabalho, Ambiente e Saúde (CETAS) e contou com professores da Universidade da Geórgia (EUA), do Centro de Estudos Ambientais Cienfuegos (Cuba) e da Universidad Nacional de San Juan (Argentina).
A trajetória de pesquisa do coletivo CETAS expressa predomínio da compreensão dos impactos sobre trabalhadores, ambiente e a sociedade.  O Centro é formado pelo Centro de Estudos de Geografia do Trabalho (CEGeT/Laboratório CEMOSI/OTIM), pelo Grupo de Pesquisa 'Gestão Ambiental e Dinâmica Socioespacial' (GADIS) e pelo Laboratório de Biogeografia e Geografia da Saúde.  Neste sentido, o evento possui um eixo fundamental de discussão vinculado às atuações dos Grupos de Pesquisas que dão origem ao CETAS.  

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