domingo, 12 de maio de 2013

Irradiar alimento orgânico pode salvar vidas

Por Dominic Dyer
A agricultura orgânica deve descartar sua desconfiança irracional da ciência ou corre o risco de perder sua reputação como sendo mais seguro e mais saudável
Trabalhei intimamente com a indústria de alimento orgânico por quase uma década, primeiro como chefe do Grupo de Manufatura de Alimento Orgânico da Federação de Alimento e Bebida do Reino Unido, e então como representante do Comitê do Plano de Ação Orgânica no governo do Reino Unido. Acredito que o crescimento do setor de alimento orgânico tem trazido muitos benefícios aos agricultores, produtores de alimentos e consumidores pelo mundo.
O mercado para o alimento orgânico se desenvolveu rapidamente nos últimos 20 anos à medida que mais consumidores tornaram-se dispostos a pagar um pouco a mais por produtos que consideram ser mais saudáveis e melhores para o meio ambiente. Embora a crise econômica atual tenha reduzido significativamente as vendas de alimento orgânico, existe hoje por volta de 170.000 fazendas orgânicas na Europa, cobrindo quase 2% de toda a terra em cultivo.
A indústria orgânica pode se sentir orgulhosa de suas realizações com o bem-estar do animal, proteção ambiental, rastreamento e qualidade alimentar como objetivos principais da agricultura e dos alimentos.
Porém, em anos recentes comecei a ficar cada vez mais preocupado com a atitude da indústria orgânica de comercializar seus produtos como alternativas mais saudáveis e mais seguras aos alimentos convencionais. Eles não são. De fato, pela ciência da exclusão, os produtores orgânicos podem contribuir com o aumento no risco dos consumidores de contrair Escherichia coli e outros causadores de doenças que crescem em alimentos.
O surto fatal e recente de E. coli iniciado na Alemanha desviou a atenção para a validade dos argumentos de que a comida orgânica é mais saudável e mais segura. O surto foi traçado em brotos de feijão de uma fazendo orgânica em Bienenbüttel, nordeste da Alemanha. Como a New Scientist anunciou, 35 pessoas morreram no surto e outras centenas ficaram doentes. Como resultado, a preocupação está crescendo em relação aos padrões de segurança microbiológica do alimento orgânico.
Então estamos mais suscetíveis à E. coli e outras doenças que crescem em alimentos orgânicos e, logo, o que os produtores podem fazer para reduzir o risco e restaurar a confiança da marca orgânica?
Há bem poucos estudos científicos que compararam a segurança microbiológica nos sistemas de produção de alimento convencional e orgânico. Em teoria, o alimento orgânico pode estar mais propenso à contaminação microbiana devido à ausência de conservantes e ao uso de estrume como fertilizante. Porém, em locais onde os estudos foram feitos, os resultados não foram conclusivos. Isso é devido a vários fatores, incluindo amostra de pequeno tamanho e variações regionais e sazonais.
O que está claro é tanto os alimentos orgânicos como os convencionais são suscetíveis à contaminação por microorganismos patogênicos em todos os pontos da cadeia alimentícia. Isso pode ocorrer durante a produção, do estrume à água, durante o processamento no ambiente e durante a manipulação final e empacotamento, possivelmente como resultado de baixa higiene humana.
Uma área onde o sistema de produção orgânica pode aumentar o risco à saúde é através do uso de estrume não tratado como fertilizante. Estudos conduzidos entre a produção orgânica e convencional por agricultores de Minnesota em 2004 encontraram que a contaminação por E. coli foi 19 vezes maior em fazendas orgânicas que utilizaram esterco ou composto orgânico com menos de 12 meses de idade que agricultores que utilizaram materiais mais velhos.
Embora os riscos sejam reduzidos à medida que o esterco envelheça, pesquisadores têm encontrado que muitos organismos patogênicos, tais como E. coli e salmonela, podem sobreviver facilmente por 60 dias ou mais em compostos orgânicos ou no solo, dependendo da temperatura e das condições do solo.
Outro fator de risco extra na produção orgânica é o não uso de fungicidas, o qual pode levar ao crescimento de fungos e aumentar o risco de micotoxinas tais como aflatoxina e o esporão do centeio nas culturas.
Levando esses riscos em conta, e com os eventos recentes da Alemanha em mente, penso que os produtores de alimento orgânico precisam se focar no gerenciamento do risco. Mais pesquisas precisam ser feitas sobre a sobrevivência de patógenos na cadeia alimentícia.
Também acredito que a indústria orgânica deve deixar de lado suas suspeitas e desconfianças na ciência em relação à produção de alimentos e perceber como ela pode introduzir novos sistemas que reduzam o risco de surtos futuros de doenças alimentícias fatais como a da E. coli.
A real tragédia do incidente da E. coli na Alemanha é que o surto poderia ser prevenido se a indústria orgânica tentasse irradiar seus produtos. A cultura de broto de feijão que originou o surto requer um ambiente úmido e quente para crescer, o que aumenta o risco de contaminação pela E. coli e outras bactérias que causam doenças. A única certeza para reduzir esse risco é irradiar as sementes do broto, pois mata efetivamente 99,999% da E. coli. Não há evidências de que isso afete a qualidade nutricional do alimento.
Além desses fatos, a indústria orgânica continua seu lobby contra o uso da irradiação. Quando o ministro da agricultura do presidente Bill Clinton, Dan Glickman, propôs incluir a irradiação à agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos da América em 1998 - especificamente para reduzir o risco de E. coli - o ministério da agricultura dos Estados Unidos da América recebeu mais de 300.000 petições individuais e de organizações estadounidenses e européias em oposição a esse movimento. Como resultado, a cláusula foi removida da legislação final.
Se a indústria orgânica quer manter a confiança deve mostrar que está apta a adotar tecnologias que colocam a segurança do alimento em primeiro lugar. Se o alimento orgânico é irradiado, então a tecnologia será amplamente aceita ao longo da cadeia alimentícia em geral, e vida serão salvas. Isso é uma meta que cada produtor de alimento deve se esforçar.
Dominic Dyer é executivo chefe a Associação de Proteção ao Cultivo do Reino Unido em Peterborough e possui muitos anos de experiência trabalhando com a indústria de alimento orgânico.

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