quinta-feira, 9 de maio de 2013

Eleição na OMC e o complexo de capataz

Por Flavio Aguiar

Quando a gente fala em “Velho Mundo”, o que vem ao pensamento é a Europa. Ou a Eurásia e a África. Mas a expressão tem uma dimensão temporal, como demonstra o adjetivo. E nesta dimensão o Velho Mundo é a pátria da direita brasileira e de seus arautos embora, é claro, eles vivam assombrados, lembrando livremente comentário de Sérgio Buarque de Hollanda, pelo “secreto horror” que a pátria brasileira lhes desperta.
Secreto? Cada vez menos. Já nem são assombrados, são aterrados pela dura realidade de abrirem a janela para ver, não o Sena, nem o Tâmisa, (por favor, não lembremos o Tejo, também subdesenvolvido), muito menos o Reno, o Elba e o Mosela, nem mesmo o Hudson e os Grandes Lagos, mas – horreur!, my God, meus sais! – os nossos rios, do Oiapoque ao Chuí, e em vez da retilínea Floresta Negra, as retortas da Amazônia, da Mata Atlântica, do Cerrado, da Caatinga, dos bananais etc.
Até os nossos temperados pinheiros – as araucárias – são cheios de curvas e obrigados a conviver com aquela mata confusa que eles abrigam e protegem, em vez de desfrutarem da exclusividade silenciosa e vertical dos pinheirais europeus e das Rochosas.
A nossa direita vive ainda em tempos de Casa Grande & Senzala. Imagina-se na Casa Grande, mas isto é uma espécie de miragem acalentada para compensar o fato de que na sua dura imaginação empedrada vivem mesmo é num puxadinho da Senzala. A Senzala somos nós, o Brasil. Eles são, mas não conseguem assim se reconhecer, apenas os capatazes da Senzala.
São assim mesmo, escritos com minúscula, diante da majestade, do tamanho e do alcance da Senzala que eles querem administrar tirando um percentual de benefícios, entre eles o de quando em quando fazer um turismo – que pensam ainda ser exclusivo – pelo alpendre da Casa Grande, que são as suas paisagens. Porque Casa Grande mesmo, é a Europa; são os Estados Unidos, o Japão, a Coréia do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia.
Bom, pelo menos uma certa Europa, aquela entre o Oder (fronteira da Alemanha com a Polônia) e o Tâmisa. Pra lá do Oder também há uma espécie de Senzala, mas que pelo menos, para este tipo de imaginário, é branca em vez de trigueira ou mesmo negra. Bom, há o mundo dos amarelos e indianos que se agiganta, vá lá: mas deixem que eles briguem e se entendam com os Estados Unidos e a Rússia.
Esse “complexo de capataz” reapareceu com fúria em vários comentários que li sobre a eleição do diplomata brasileiro Roberto Carvalho de Azevêdo para a direção geral da OMC. Com indisfarçável má vontade muitos destes comentários tiveram de reconhecer que a diplomacia brasileira marcou um ponto. Aliás, um ponto não, um golaço. Uma cesta daquelas de Oscar na seleção. Fruto de um trabalho paciente de aquisição de respeito e representatividade.
Porém, essa vitória também propicia à indigestão e acidez da capatazia a oportunidade de lembrar que ela se deve ao “equivocado privilégio” que nosso país dá ao “terceiro mundo”, preferindo abrir embaixadas pela África, dinamizar o Mercosul, procurar se instalar na América Central, no Caribe, na Ásia, em vez de abrir mais e mais escritórios-mercadinhos nas salas de espera do “primeiro mundo”.
É uma visão de tal anacronismo e subserviência que dá pena. Ela se baseia num retrato em branco e preto do mundo, ainda o da guerra fria, sem conseguir reconhecer o quão mais complexo este nosso vale de lágrimas e realizações se tornou. Até porque se há um lugar em que a diplomacia brasileira é respeitada – e agora talvez comece também a ser temida – é a Europa.
Prova disso é que, se os países líderes da União Europeia, os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul fizeram campanha pelo diplomata mexicano Hermínio Blanco, nenhum deles teve a coragem de vetar o brasileiro. Ao contrário do que ocorreu anteriormente, quando a eleição de um tailandês provocou tal tempestade que ele se viu forçado a repartir o mandato com o neozelandês que era o preferido do clube da Casa Grande Mundial. Vivam assombrados, lembrando livremente comentário de Sérgio Buarque de Hollanda, pelo "secreto horror" que a pátria brasileira lhes desperta.
O “velho mundo” que a nossa direita acalanta com sua “realidade” vem perdendo espaço a olhos vistos na ordem internacional – o que não quer dizer que esteja entregando o poder e desistindo de procurar manter sua hegemonia. Para tanto, vem semeando a desgraça e o infortúnio dentro de suas próprias fronteiras, tendo aumentado o seu “exército da pobreza de reserva” enormemente nos Estados Unidos durante as administrações republicanas recentes e fazendo o mesmo agora na Europa, onde o pensamento ortodoxo dominante (vem perdendo a hegemonia) está criando sua própria periferia.
Mas este é o mundo em que a nossa direita se espelha. E vai continuar se espelhando durante muito tempo, mesmo que a imagem que ela vê vire uma mera fantasmagoria. Seu ideal é o México – que virou decididamente um puxadinho econômico dos Estados Unidos que importa quase tudo de lá ou por lá – até boa parte das incômodas drogas. Mas pelo menos nos filmes, de vez em quando uma horda de robustos caubóis invade México – o que, para a nossa direita, sem dúvida, é um sinal de proximidade com a civilização.

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