sábado, 4 de maio de 2013

As raízes da crise econômica mundial

Por François Chesnais
A crise financeira europeia é a manifestação, na esfera da finança, da situação de semiparalisia em que se encontra a economia capitalista mundial. Atualmente ela é a manifestação mais evidente, mas não a única. As políticas de austeridade conduzidas simultaneamente na maioria dos países da União Europeia contribuem para a espiral recessiva mundial
Elas não são a única causa. Os títulos dos itens da nota da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) de setembro de 2011  são eloquentes: "A atividade mundial está próxima da estagnação"; "O comércio mundial está contraído, os desequilíbrios mundiais persistem"; No mercado de trabalho, as melhorias são cada vez menos perceptíveis"; "A confiança está se degradando", etc. Logo depois de saírem as projeções da Eurostat de meio de novembro, de uma contração económica dos Estados Unidos, na qual a Alemanha não era exceção, a nota da OCDE de novembro constatou uma "deterioração considerável", com um crescimento de 1,6% para o conjunto da OCDE e de 3,4%  para a economia mundial.
Na Europa, a atenção dos trabalhadores e dos jovens se concentra, de maneira compreensível, sobre as consequências da "situação sem saída" e do "salve-se quem puder" dos burgueses europeus. A crise política da União Europeia e da zona do euro e as idas e vindas do Banco Central Europeu em torno do financiamento direto dos países com maiores dificuldades são as expressões mais evidentes. Isso é completado com a acentuação das políticas de austeridade e com a implantação acelerada de uma "segurança total" da qual nenhum país escapa. Contudo, a situação europeia não pode ser compreendida independentemente da situação da economia mundial como um todo. A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (CNUCED) escreve no início de seu relatório que "o grau de integração e de interdependência económicas no mundo atual é sem precedente" (CNUCED). E um avanço intelectual incontestável, do qual muitos comentadores e mesmo militantes de esquerda poderiam de maneira útil se inspirar. O campo da crise é aquele do "mercado mundial constituído", do qual Marx fala em seus escritos económicos (MARX, 1980). Hoje, depois da integração China e da plena integração da índia na economia capitalista mundial, este conhece um grau de densidade jamais visto antes nas relações de interconexão e de rapidez de interações. É nesse quadro que as questões mais essenciais (superacumulação, superprodução, superpoder das instituições financeiras, concorrência intercapitalista) devem ser abordadas.
Nenhum "fim de crise" está à vista
Na linguagem económica corrente de inspiração keynesiana, o termo "saída de crise" designa o momento no qual o investimento e o emprego retomam. Em termos marxistas, é o momento no qual a produção de valor e de mais valia, mediante a contratação e o emprego de assalariados e a venda de mercadorias, permitem que o capital realize sua apropriação e que essa se repouse novamente sobre uma acumulação de equipamentos novos, sobre a criação de novas capacidades de produção. São muito raras as economias que, inseridas em relações de interdependência, continuam, como a China, a usufruir de certa autonomia, e onde a saída da crise é concebível ao nível da economia do Estado nação. Todas as outras estão inseridas em relações de interdependência nas quais o bloqueio do ciclo do capital (Dinheiro - Mercadoria - Mais valia - Dinheiro') de uma grande parte das empresas (de todas as grandes pelo menos) se faz no estrangeiro. Os maiores grupos transferem diretamente o ciclo inteiro de uma parte de suas filiais para outro país.
A isto se constitui a amplitude do impasse registrado quando do último G 20. Mais de quatro anos depois do início da crise (agosto de 2007) e mais de três anos depois das convulsões provocadas pela falência do Banco Lehmann (setembro de 2008), a situação de conjunto é marcada pela incapacidade do "capital" (os governos, os bancos centrais, o Fundo Monetário Internacional e os centros privados de centralização e de poder do capital tomado coletivamente) encontrar, por agora pelo menos, os meios de criar uma dinâmica do tipo indicada ao nível da economia mundial, ou ao menos de amplas partes dela. A crise da zona do euro e seus impactos sobre um sistema financeiro opaco e vulnerável são uma das expressões. Esta incapacidade não é sinónimo de passividade política. Ela significa simplesmente que a burguesia está se movendo cada vez mais completamente pela vontade única de preservar a dominação de classe em toda sua nudez no que diz respeito, de maneira imediata e direta, aos trabalhadores europeus, os centros de decisões capitalistas estão ativamente em busca de soluções que protegeriam os bancos, que evitariam o choque financeiro de grande amplitude representado pelo défaut da Itália ou da Espanha e o afundamento do euro, e que fariam, mais do que nunca, cair todo o peso da crise sobre as classes populares. Testemunho disso é a chegada à cúpula dos governos grego e italiano, com poucos dias de intervalo, de integrantes do capital financeiro nomeados diretamente por ele, mediante "alterações nos procedimentos democráticos". Testemunho disso são, sobretudo, as diferentes versões de um projeto de "governança" autoritária em discussão no seio da zona euro. Esse projeto tem implicações políticas ainda mais graves para os trabalhadores, pois ele é acompanhado pelo endurecimento do caráter pró-cíclico das políticas de austeridade e de privatização, e contribui para uma nova recessão que está em marcha.

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