Pular para o conteúdo principal

A disputa entre Barbosa e Gurgel

Por Bepe Damasco

Os dois parecem disputar uma competição particular tendo como palco a arena da República Federativa do Brasil. Ganha quem fizer mais pontos nas modalidades cerceamento de direito de defesa, atropelo dos regimentos do STF e da PGR, moralismo seletivo, linchamento de réus, arrogância, prevaricação, autoritarismo, violação do direito penal, ataque à harmonia entre os poderes e afronta à Constituição. Até o momento, no entanto, essa contenda antirrepublicana registra empate. E, pelo "poder de fogo" apresentado pelos competidores, tudo leva a crer que o jogo chegue ao fim sem ganhadores. Afinal, eles se merecem e se equivalem. É mais fácil, porém, apontar o perdedor : o sistema de garantias individuais, um dos pilares do Estado Democrático de Direito.
Nos últimos dias, o peso pesado que ocupa a PGR e o Torquemada do Judiciário brasileiro cometeram verdadeiros atentados contra a consciência jurídica do país. Enquanto o sósia do Jô Soares (sósia de corpo e alma) devolvia ao STF todos os embargos declaratórios, recomendando uma até então inédita rejeição a granel, o vingador do PIG e relator da Ação Penal 470 violava o direito dos réus e se manifestava contra o acolhimento dos embargos infringentes.
Que se dane o regimento do Supremo. Às favas com uma prerrogativa líquida e certa da defesa de todos os acusados que obtiveram, pelo menos, quatro votos pela absolvição. Mesmo sabendo que será derrotado no plenário nessa questão, Barbosa não hesita em jogar para a platéia e agradar seu aliados da mídia monopolista de direita.
No fundo, Barbosa e Gurgel tremem de medo de que um reexame sério do processo os leve à desmoralização pública. Num outro julgamento pode não bastar a cumplicidade canina do PIG. E se vier à tona a farta documentação provando que todo o dinheiro que eles dizem ter sido desviado foi efetivamente gasto nas campanhas promocionais da bandeira Visa no Brasil ?
Vai que fique claro que alguns condenados por corrupção ativa não poderiam ser alcançados pelo aumento de pena previsto na nova lei, já que são acusados de terem cometido esse tipo de crime em período anterior à mudança da legislação. E se forem levadas em conta as mais de 600 testemunhas que nunca ouviram falar de compra de votos no Congresso Nacional ?
É possível ainda que as perícias do Banco do Brasil atestando não haver quaisquer irregularidades na gestão do Fundo Visanet sejam finalmente enxergadas pelos ministros. Quem sabe também vossas excelências togadas se rendam ao caráter legal dos empréstimos concedidos ao PT, conforme atesta a Polícia Federal. A aprovação das contas do PT pelo Tribunal Superior Eleitoral, exatamente nos anos em que o partido é acusado de falcatruas, de repente pode ter o valor de prova que merece.
É disso tudo que a dupla tem medo. Daí a pressa em virar a página do julgamento. Em encarcerar condenados, atropelando prazos, regimentos e direito a recursos. Quem não se lembra da manobra vil do procurador-geral, que, às vésperas do Natal, esperou o STF sair de recesso para pedir a prisão dos réus, contanto com uma decisão monocrática favorável de Barbosa. De tão absurdo, o pedido acabou negado pelo relator ?
Mas a verdade vem aí. Mais cedo ou mais tarde. Como diz o deputado Genoíno, para os marxistas, a verdade é revolucionária, e para os não marxistas, ela é libertadora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

25 anos sem Chico Mendes

Por Felipe Milanez Morto em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes deixou um legado de intensa disputa política e é fonte de inspiração para movimentos sociais pelo mundo Chico Mendes queria viver para salvar a Amazônia Foto de Chico Mendes em sua casa, poucos meses antes de morrer. Na sua última entrevista, concedida a Edilson Martins, ele dizia que queria viver para salvar a Amazônia, pois sabia que a impunidade era o lugar comum das mortes na região Na noite de 22 de dezembro de 1988, uma semana após completar 44 anos de idade, Chico Mendes foi alvejado por um tiro de escopeta no peito, na porta de sua casa, em Xapuri, Acre, enquanto saía para tomar banho (o banheiro era externo). No interior da casa, os dois guarda costas responsáveis por cuidar da sua segurança, da polícia militar, jogavam dominó e fugiram correndo ao escutar o disparo. A tocaia foi armada pelo fazendeiro Darly Alves e executada por seu filho, Darcy, junto de um outro pistoleiro. A versão que se tornou oficial da morte…

Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos”

Prestes a fazer 90 anos, acaba de abandonar o MIT. Ali revolucionou a linguística moderna e se transformou na consciência crítica dos EUA. Visitamos o grande intelectual em seu novo destino, no Arizona Por JAN MARTÍNEZ AHRENS Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) superou faz tempo as barreiras da  vaidade. Não fala de sua vida privada, não usa celular e em um tempo onde abunda o líquido e até o gasoso, ele representa o sólido. Foi detido por opor-se à Guerra do Vietnã, figurou na lista negra de Richard Nixon, apoiou a publicação dos Papéis do Pentágono e denunciou a guerra suja de Ronald Reagan. Ao longo de 60 anos, não há luta que ele não tenha travado. Defende tanto a causa curda como o combate à mudança climática. Tanto aparece em uma manifestação do Occupy Movement como apoia os imigrantes sem documentos. Preparado para o ataque.Mergulhado na agitação permanente, o jovem que nos anos cinquenta deslumbrou o mundo com a gramática gerativa e seus universais, longe de descansar sobre as glóri…

Britânicos querem reestatizar empresas

Jornal GGN - Mais de 70% são favoráveis a nacionalização de água, eletricidade e ferrovias; centro de pesquisa desenvolve estudos para reestatização a custo zero. 

O Reino Unido foi considerado a Meca das privatizações nos anos 80, mas em 2018, os britânicos querem de volta o controle estatal de serviços essenciais. Segundo levantamento feito no Reino Unido, 83% são a favor da nacionalização do serviços de abastecimento e tratamento de água; 77% de eletricidade e gás e 76% a favor da nacionalização das linhas de transporte ferroviário. O "Estado mínimo" se mostrou uma bomba-relógio social. A reestatização de todas essas empresas, incluindo a Thames Water, responsável pelo abastecimento na Grande Londres, custaria ao governo do Reino Unido algo em torno de 170 bilhões de libras. Mas um trabalho desenvolvido pela Big Innovation Centre cria um modelo de contrato onde a Grã-Bretanha conseguiria retomar o controle das empresas sem gastar um centavo. Isso seria possível com uma no…