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Uma semana que a Globo quer esquecer

Por Marco Aurélio Mello
Começou na sexta-feira da paixão, com a decisão do jornalista Luiz Carlos Azenha de desativar o sítio Viomundo. Logo em seguida, uma rede de solidariedade formou-se nas redes sociais. Viomundo, tocado voluntariosamente, sem recursos públicos e com publicidade apenas do Adsense, que é uma ferramenta do Google que premia cliques, é um dos canais independentes mais acessados do país (ao lado do de Paulo Henrique Amorim, ex-global, e Luis Nassif, que dispensa apresentações).
Na sexta-feira à noite, madrugada do outro lado do mundo, em Tunis, Tunísia, manifestações de solidariedade pipocavam pelo twitter, vindas do Fórum Social Mundial. Ainda no fim de semana da Páscoa, o presidente do Centro de Estudos da Mídia Independente Barão de Itararé, Altamiro Borges, agendou um encontro na sede da organização (na última terça-feira) para discutir um tema reclamado pelos próprios internautas: a criação de um Fundo de Solidariedade para socorrer blogueiros perseguidos por ações judiciais.
Como bem sabemos, a Justiça brasileira - e as estatísticas não nos deixam mentir - só funciona implacavelmente para pretos, pobres e putas. Um documento divulgado pela ONU no início desta semana demonstra que os mais vulneráveis são os alvos preferenciais do aparato de segurança do Estado brasileiro. Neste sentido, os anônimos da internet entenderam o recado: as sentenças em primeira instância contra blogueiros graúdos e miúdos, que começavam a se avolumar, todas nascidas no seio de um dos maiores conglomerados de mídia do planeta, as Organizações Globo, eram um gesto de intimidação.
O principal litigante é um jornalista com carreira feita nas Organizações e que ocupa hoje o mais alto posto do telejornalismo brasileiro, Ali Kamel. Kamel atacou em várias frentes: questionou quem o relacionava a um homônimo, que foi ator pornô nos anos 80; quem criticava o mau jornalismo da emissora, considerando-o pornográfico e, até quem, a partir de situações reais escreveu ficção, como este Doladodelá.
Lima Barreto, Nelson Rodrigues, Danton Trevisan... uma galeria de célebres escritores se notabilizaram por escrever ficção a partir da realidade. Aliás, o que é a ficção, senão a realidade mais ou menos realista? Mesmo assim, a ficção se personificou e teve acolhida da Justiça, que entendeu ataque à honra de um homem que, poderoso, não sabe mais onde começa o jornalista e pai de família dedicado à mulher e às enteadas, e onde termina o executivo, que dá as ordens na emissora. Público, privado, profissional e institucional servem à uma confusão só, o que permite que use convenientemente a persona que melhor o "qualifica" jurisdicionalmente.
Não há que se discutir decisões judiciais. Elas devem ser questionadas tecnicamente, no âmbito dos tribunais. E é bom que seja assim. Ao tirar uma demanda das mãos da sociedade, a Justiça preserva seus cidadãos do impulso natural de fazê-la por seus próprios meios e com suas próprias mãos. Mas a Justiça tem que ter sensibilidade, quando percebe que está sendo manipulada, para fazer prevalecer o discurso autoritário do poder econômico e político, que vez ou outra apela a este artifício, para interditar o debate público de temas relevantes à sociedade.
Na quarta-feira foi a vez da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares prestar sua solidariedade e num encontro com com representantes de movimentos populares, coube ao representante jovem do MST questionar a presidente Dilma sobre o tema da Democratização das Comunicações.
Neste sentido, o gesto de Azenha, antes de ser um ato de covardia, foi um grito, um alarme à sociedade, que respondeu prontamente. Na Câmara e no Senado Federal o tema ganhou destaque. O Ministro das Comunicações, até então reticente ao tema da regulamentação de dispositivos previstos na Constituição Federal, é bom que se diga - e que já foram objeto de discussão pública em todo o país, antes de virarem proposta de Marco Regulatório - admitiu publicamente que sim, aceita declinar-se sobre o tema.
Justiça seja feita com a coragem do publisher Mino Carta que em uma capa ousada acusou Paulo Bernardo de fazer o jogo das empresas de comunicação e de telefonia, contra o interesse público. Bernardo é acusado de usar o cargo para fazer campanha para a mulher, também ministra, que tem pretensões de disputar o Governo do Paraná, no ano que vem, com o apoio da afiliada da Globo naquele Estado. Temas transversais, caros ao próprio governo Dilma, que se vê envolto em interesses que vão muito além da obstinação pelos pobres e oprimidos, objeto de acertadas políticas sociais e de transferência de renda.
A Rede Globo, acostumada a agir nos bastidores, sem barulho, enquanto ostenta a fleuma do jornalismo ético, da Fundação de amparo à pesquisa e ao desenvolvimento, em defesa da educação, do progresso e da justiça social, viu-se, como em 2006, mais uma vez nas cordas, igual a quando forjou um telejornal desequilibrado jornalisticamente, com o intuito de influenciar o pleito daquele ano.
Naquela ocasião, correram e compraram um espaço publicitário na Revista Carta Capital (pagando preço de tabela cheia), usaram a Organização "a serviço do homem", e fizeram circular um abaixo-assinado apócrifo (ideia de Willian Bonner e Claudio Latgé), para defender Ali Kamel e depois calaram um a um seus opositores internos; hoje já não conseguem mais esta proeza.
"Insiders" informam que analistas consideraram que Ali Kamel deu mais um tiro no pé quando, impulsivamente, agiu com o fígado, para perseguir jornalistas que nada mais fazem do que contraditá-lo. Também informam que esse "espraiamento" de um tema antes restrito à meia duzia de obstinados blogueiros apelidados por José Serra em 2010, ano da bolinha de papel, de sujos, só prejudica a imagem da emissora, interna e externamente.
Isso não é bom para eles, principalmente num momento em que as próprias agências publicitárias começam a questionar uma mordaça chamada BV (bônus de volume), que é uma forma institucionalizada de corrupção (como um gerente de compras dos Supermercados Extra ganhar "um por fora" para preferir os iogurtes da Nestlé, em vez dos da Danone, por exemplo).
E mais, num momento delicado, em que a audiência não reage, um novo instituto de medição está a caminho, para disputar a hegemonia do IBOPE, e as pessoas começam a adquirir o péssimo hábito de procurar na internet a informação isenta, que tanto procuram. Espero que este "espraiamento" não se transforme em mais uma "ponte estaiada" a atravessar o caminho da nossa tão jovem e tão carente democracia participativa.

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