domingo, 24 de março de 2013

Os direitos da mulher na hora do parto

Por Carol Scorce
Deborah Delage diz que mulher não tem autonomia sobre escolhas na gestação e no parto. Maioria das gestantes é levada a optar por cesariana sem que o procedimento seja necessário.
Deborah Delage é militante dos direitos da mulher no parto, causa muito atual no Brasil, País recordista mundial em cesarianas. De acordo com o Ministério da Saúde, 43% dos partos são cesarianas. A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que essa porcentagem não ultrapasse os 15%. Na rede médica privada, o percentual é maior ainda: cerca de 80% dos partos feitos por convênios ou particulares são cesarianas. Deborah é cirurgiã dentista por formação e se especializou em saúde pública. Quando engravidou da primeira filha, descobriu que a mulher não tem autonomia sobre as escolhas na gestação e no parto. Ela concedeu a seguinte entrevista ao ABCD MAIOR.
Quais direitos são retirados da mulher na hora do parto?
DEBORAH DELAGE - São muitos. No setor público, não se cumpre o direito ao acompanhante. Há exceções, mas na maior parte dos hospitais essa lei não é cumprida. Mas os direitos que são retirados geralmente não são sentidos pela mulher, porque já se formou uma cultura em que tudo é feito para beneficiar os procedimentos médicos, facilitar o trabalho da equipe, e muitas dessas intervenções agregam risco para a mãe e para o bebê. O remédio usado para induzir o parto, por exemplo, faz com que a gestante tenha dores fortíssimas, muito maiores dos que durante o trabalho de parto normal, e a gestante não é questionada se quer ter o trabalho de parto naturalmente ou não. Durante o trabalho de parto, a mulher é impedida de se movimentar, sendo que estudos apontam que ela se movimentar melhora as dores e estimula naturalmente o parto.
E por que é feito dessa maneira?
Porque esses procedimentos são mais práticos para a equipe envolvida no parto. No caso da cesária, por exemplo, são feitas em maior número não porque são mais caras, porque o médico ganha mais com elas, porque o parto natural é praticamente o mesmo valor, mas para o médico não é conveniente desmarcar um dia inteiro de consultas para acompanhar uma mulher em trabalho de parto um dia inteiro. Sem contar que o hospital lucra mais com a cesária: envolve mais profissionais, a mulher fica internada mais dias, tem o soro, a internação do bebê.
E na rede pública?
Na rede pública temos problemas como o quarto coletivo. A mulher fica numa maca, sem nenhuma privacidade, tem de ficar deitada o tempo todo, o que aumenta muito mais a dor. No caso dos hospitais-escola, muitas vezes estudantes examinam a gestante sem nenhum aviso prévio, e na sequência. Ou seja, vários alunos colocam o braço dentro da mulher sem o consentimento dela. Outro procedimento muito comum é a episiotomia, que é o corte feito na vagina. As gestantes acreditam que é feito para ajudar na retirada do bebê, quando na verdade é feito somente para ajudar na visualização do médico. Não é necessário e é contraindicado, porque rompe fibras na região da vagina e traz consequência na vida sexual da mulher. Isso é uma lesão corporal grave, que é feita também sem consentimento.
A senhora acredita que a mulher acha comum esse tipo de agressão?
Não há informação. Esses procedimentos são introduzidos de modo muito sutil. O médico não diz na primeira consulta que não vai acompanhar a gestante em um parto natural. Ao longo do pré-natal a mulher é induzida a acreditar que aquilo é o melhor para ela.
A Fundação Perseu Abramo fez uma pesquisa com quatro mil mulheres listando vários procedimentos, e 25% delas reconheceram que sofreram algum tipo de agressão durante o parto. Há um conflito de interesses, em cuidar das pessoas e lucrar com o cuidado das pessoas. A mulher é levada a crer que não tem opção, e o que fazemos é mostrar que tem autonomia sobre a sua gestação. Propomos discussões onde a mulher tem de ser a protagonista desse processo, de maneira que ela seja amparada para poder fazer a melhor escolha.
O que é a maternidade ativa?
Maternidade e gestão ativa são aquelas em que a mulher pode optar pelo modo como quer que o seu parto aconteça, fazendo escolhas baseadas em evidências. É o resgate do protagonismo da mulher nas escolhas do ciclo de gestação. Também apoiamos mulheres em busca de respostas baseadas em evidências e boas práticas para tudo que se relaciona à saúde e o bem-estar da dupla mãe-bebê. Defendemos escolhas informadas por evidências científicas no parto, criação com apego, aleitamento exclusivo até seis meses de vida e prolongado até 2 ou mais anos de idade, segundo recomendações da Organização Mundial de Saúde.
E o que são as escolhas baseadas em evidências?
É um conceito da década de 1980, na qual não se deve fazer escolha terapêutica sem que haja comprovada necessidade do uso dela como fundamental para o paciente, no caso a mãe. É por não fazer uso desse conceito que praticamente 100% dos partos na rede privada e 70% na rede pública são cesarianas. As mulheres são levadas a optar por uma cesariana sem que seja necessária para elas e para o bebê, mas por ser conveniente ao médico, ao hospital e a outros profissionais da saúde.
O que é o MaternaMente?
A ação concreta do grupo existe há três anos e meio.  Faz aniversário de quatro anos em agosto. Somos um grupo de profissionais da saúde que debate e estimula para que as mulheres tenham uma maternidade ativa. Temos um blog, onde divulgamos artigos, informativos, ideias, e mensalmente fazemos encontros para o debate. Nos juntamos também a outros movimentos de mulheres em palestras, passeatas, atos, e prestamos assessoria para a formulação de políticas públicas a partir dos debates.

Nenhum comentário:

Postar um comentário