domingo, 17 de março de 2013

Entrevista de Luiz Gonzaga Belluzzo

Por Ligia Guimarães, Jornal Valor
Em 2013, o governo precisará encontrar o equilíbrio entre o controle da inflação e o aquecimento da atividade econômica, na opinião do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor da Faculdade de Campinas (Facamp).
Os desafios da equipe econômica para este ano, segundo Belluzzo, serão dosar juros – “o BC tem que esperar para ver o que vai acontecer nos próximos meses” -, ajustar o câmbio – “acho que estava indo bem entre R$ 2, R$ 2,10″ – e persistir no aperfeiçoamento da comunicação com o setor privado, sem deixar de sinalizar ao mercado o compromisso de manter a inflação no rumo do centro da meta. A entrevista é de 28-02-2013.
“Não adianta dizer ‘não, vou me preocupar só com a inflação’. Tem que arrumar esses elementos, sobretudo do deslanche do investimento público, para fazer com que a economia cresça”, disse. A entrevista foi publicada com exclusividade no Valor PRO, serviço de notícias em tempo real do Valor.
Na visão de Belluzzo, o pífio crescimento da economia no ano passado, a ser confirmado pelos números que serão divulgados amanhã pelo IBGE, foi resultado principalmente da combinação do cada vez mais fraco investimento da indústria brasileira, o forte consumo de importados e a dificuldade do governo em fazer deslanchar os aportes privados em infraestrutura. A projeção do Valor Data aponta expansão de 0,9%, bem abaixo dos 4% previstos pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, no início de 2012.
Eis a entrevista.
No ano passado, o governo estimulou a economia, reduziu impostos, baixou juros, mas a economia cresceu muito pouco. O que deu errado?
Você tem que explicar o conjunto das circunstâncias que levaram a isso. O Brasil se saiu muito bem do impacto da crise. O governo reagiu corretamente, dando estímulos ao consumo, estimulando a compra de carteira dos bancos menores pelos bancos maiores, utilizando o Fundo Garantidor de Crédito. Conseguiu crescimento expressivo em 2010. Os estímulos, sobretudo porque estavam muito concentrados no consumo, foram perdendo força. O investimento começou a retroceder muito rápido, depois de ter ido muito bem. Você tem o encerramento de um ciclo, que teve uma interrupção em 2008, mas que se renovou em 2010, e esse ciclo se esgotou, até porque houve os efeitos negativos sobre a indústria da longa valorização do câmbio. Esses efeitos agora estão ficando muito claros. O que marcou a economia nesses anos foi o desempenho ruim do setor industrial. O investimento industrial foi muito baixo.
Houve em 2012 discrepância muito grande entre a alta de 8,4% do varejo e a retração de 2,7% na indústria. Como o sr. explica esse hiato?
Esse hiato, que Yoshiaki Nakano chama de “boca do jacaré”, é muito expressivo e mostra a dinâmica que está movendo a economia brasileira hoje. Houve sustentação do emprego, da renda e, portanto, da demanda, que se abasteceu basicamente de importações. Todos os setores industriais, inclusive aqueles mais intensivos em mão de obra, têm déficit na balança comercial. Você tem baixo crescimento e uma importante mudança da composição da demanda. Aqueles que subiram, a chamada nova classe média, passaram a adquirir bens duráveis muito baratos, que são o efeito-China, e a cesta de consumo deles se moveu para os serviços. Se você olhar a composição da inflação dos serviços, vai notar que é muito mais alta, na média dos dois anos, do que nos outros setores. Começou a subir a remuneração daqueles que prestam serviços pessoais, isso denota mudança também nos preços relativos. Às vezes os economistas confundem mudança de preços relativos com inflação.
É uma mudança de patamar definitiva, ou ao menos um pouco mais duradoura?
Talvez um pouco mais duradoura, dependendo de qual vai ser a continuidade do crescimento. As deficiências estão na taxa de investimento. Tanto no investimento público quanto no investimento privado, sobretudo na indústria. O governo se moveu para rearranjar as relações com o setor privado e fazer com que o investimento público seja capaz de impulsionar o investimento privado, inclusive na indústria. O investimento público em logística, portos, ferrovias, pode ter impacto sobre a indústria nacional, assim como os investimentos da Petrobras no pré-sal, que também sofreram uma dissolução de continuidade por conta dos problemas que a empresa viveu.
E qual é a perspectiva para o investimento?
O Brasil está vivendo esse momento de transição. Você tem um conjunto de projetos razoavelmente atraentes, o governo está trabalhando para que isso logo se transforme em gastos, formação da renda e crescimento um pouco maior. Você tem um hiato.
Eu dei uma entrevista há um tempo sobre a necessidade de se estabelecer um diálogo com o setor privado. É preciso haver coordenação. Eu não disse que falta coordenação em todo o governo, disse que faltava coordenação na área de infraestrutura, para atrair o setor privado para participar dos empreendimentos. Acho que isso agora está caminhando nessa direção e espero que ano que vem a gente assista essa mudança.
Há críticas de que o governo está errando a mão na hora de se comunicar com o setor privado, tanto para atrair investimento, quanto na flexibilização da política fiscal e monetária. O sr. vê isso?
Essa questão tem a ver com a arte da comunicação, de você estabelecer laços de confiança com o setor privado. Ninguém constrói isso da noite para o dia. Quando se começou a baixar a taxa de juros, e acho que nesse caso a comunicação foi muito bem feita, tinha gente que dizia que ia ser um desastre, e não aconteceu nada disso. Quem é que se retrata do que falou? Ninguém. E é um processo de autogeração de informações: um diz uma coisa, o outro repete, e se forma um consenso. O BC está o tempo todo lidando com isso. No caso da inflação hoje, o BC tem que olhar para frente. Não pode tomar uma decisão porque teve um choque de oferta e, de repente, você sobe a taxa de juros. Tem que olhar depois daquele primeiro momento em que a inflação subiu, e está ficando claro que talvez ela vá arrefecer, porque a safra entra e existem outros fatores favoráveis. Isso é um jogo de administração de expectativas, isso é o que diz fundamentalmente a teoria de metas de inflação. Quem é que diz que o BC não vai usar a taxa de juros? O que interessa dizer que o BC abandonou o tripé? O tripé não é um dogma, é uma boa combinação, mas não existiu sempre. Não existe nenhum dogma, existem certos princípios de funcionamento da economia que você tem que respeitar.
Olhando as causas que derrubaram o crescimento em 2012, o investimento atrasado é uma delas?
Não é que o consumo se esvaiu. Desacelerou o efeito que tem sobre o crescimento da economia. Houve o agravante desse hiato, dessa boca do jacaré. Boa parte da demanda vazou para o exterior, você perdeu o estímulo para o investimento industrial. É claro que ficou muito baixo, eu diria ridiculamente baixo. Tem gente que diz: “se o câmbio está valorizado, as importações de bens de capital são baratas, seria um estímulo para investir”. Isso é outra tolice. O cara não compra o bem de capital porque ele é barato. Você pode comprar uma televisão, porque ela é barata, mas o bem de capital você vai olhar o rendimento que vai te dar na operação em que vai ser usado, no retorno. E a taxa de câmbio e a taxa de juros afetam a taxa interna de retorno dos empreendimentos.
Há também o dado de que a indústria fechou 2012 com a maior taxa de ociosidade em três anos…
A ociosidade é um bloqueio também ao investimento. Se você está com capacidade ociosa, tem que digerir essa capacidade para começar a investir.
Se a economia cresce tão pouco, por que há inflação? O sr. vê estagflação?
Isso tem a ver um pouco com a herança do período de indexação. Ainda que tenhamos vencido a ameaça de hiperinflação, a gente mantém um sistema de indexação. É um risco muito grande deixar a inflação sair do controle, porque rapidamente você tem indexação. É um esforço de anos para limpar essa memória. Agora, por exemplo, a presidente fez esse esforço com a energia elétrica. O cálculo da energia elétrica era um absurdo de indexação. Se você tem um choque de oferta, como o que houve aqui, a tendência dos formadores de preços é reagir rapidamente para acompanhar esse choque de preços, quando na verdade isso deveria ser uma coisa passageira. Por isso o cuidado com a inflação aqui tem que ser maior que no resto do mundo. Os monetaristas já estão começando a cacarejar de novo, dizendo que o quantitative easing nos EUA vai produzir inflação. Só com a dança da chuva, porque a economia americana está devagar, com o mercado de trabalho frouxo. Aqui, o mercado de trabalho está relativamente pressionado. Sobretudo o setor de serviços, onde os índices de inflação foram maiores. É um fenômeno que tem um lado bom, porque está melhorando o rendimento das pessoas. Mas para que houvesse estabilidade na taxa de inflação, seria preciso que os outros preços tivessem comportamento mais favorável. O governo tem que olhar para frente, não pode se afobar. Você não precisa dar um choque de juros, pode dar um sinal, ou pode esperar mais um pouco para ver como vai se comportar, e daí sim, agir em função daquilo que, prospectivamente, você está avaliando. Como as pessoas insistem para que você fale em números, falei em 0,5 ponto, mas isso depende do julgamento do Banco Central.
O sr. considera perigosa a tolerância com a inflação acima do centro da meta?
É bom ter a meta como orientação, e tentar manter a inflação dentro do intervalo. Mas não pode transformar isso em um ordálio [vontade divina], você tem que saber que isso não é assim. Tem gente que propõe reduzir a meta, como se fosse só definir e a inflação cai. Não é assim, é um jogo de informações e contrainformações entre o BC e o mercado, e é isso que tem que ser levado a sério. Você não pode dar o sinal de que a inflação pode ser qual for, mas não há nenhum indício de que seja assim.
A manutenção da inflação acima do centro da meta não é preocupante?
Você tem que procurar trabalhar para que ela caminhe na direção do centro da meta. Mas, e se o BC resolvesse subir de 7,5% para 9% a taxa de juros, para botar a inflação no centro da meta? Você bota a inflação no centro da meta e bota um monte de gente fora do mercado.
O alarme toca quando? Quando começa a chegar mais perto do teto da meta?
Sim, claro. E veja que se você olha as discussões – é claro que as situações são diferentes – sobre os mandatos de bancos centrais, sobretudo nos EUA, mas também na Europa, o mandato do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) é um mandato dual, que tem a ver com o crescimento da economia e tem a ver com a inflação. Hoje, a discussão está em torno disso. O Bernanke disse que, agora, a preocupação dele é com a taxa de desemprego. A meta é de inflação? Não, a meta dele é da taxa de desemprego. Ele está abandonando a política de metas? Não, porque não há essa prisão dentro de um objetivo só, o Banco Central lida com a estabilidade monetária, mas a estabilidade monetária lida também com as condições de equilíbrio dos mercados financeiros, coisa que eles não cuidaram no passado e deu no que deu. E lida também com a questão do emprego. Você pode dizer que não, mas lida sim.
Mas o sr. vê estagflação no Brasil? A economia cresceu muito pouco no ano passado, e a inflação ganhou força…
Se você definir dessa maneira, e você está definindo corretamente, a situação é de estagflação. Você precisa romper isso de alguma maneira.
E qual a perspectiva para a inflação em 2013?
Acho que o governo agora tem que se preocupar muito mais com o trade off entre inflação e crescimento. Não adianta dizer ‘não, vou me preocupar só com a inflação’. Tem que se preocupar com a inflação, e tem que arrumar esses elementos, sobretudo do deslanche do investimento público, para fazer com que a economia cresça com maior estabilidade. Aí é um problema quase de cozinheiro, de saber dosar os condimentos.
O sr. falou que o juro poderia subir 0,5 ponto ainda no primeiro semestre…
Acho que o BC tem que esperar para ver o que vai acontecer nos próximos meses. Não pode tomar uma decisão por um mês só [janeiro, quando a inflação subiu ]. Vamos ver o que vai acontecer. Se for o caso, o BC tem que agir.
Se o BC decidir aumentar o juro, por exemplo, em 0,5 ponto para sinalizar que está de olho na inflação, uma dose já seria suficiente? Ou poderia ser o início de novo ciclo de aperto monetário?
Depende da reação da inflação. É sempre uma conjectura que o BC faz. Ele pode avaliar que são necessários dois aumentos. Acho que agora não dá para ficar dizendo números. É uma coisa que tem que ser observada quase no dia a dia. O boletim Focus é uma orientação. Às vezes, ouço alguns economistas e tenho a impressão que eles são como o Demônio de Laplace [entidade imaginária sugerida pelo astrônomo e matemático Pierre Simon Laplace (1749-1827], que sabe tudo sobre tudo, em todos os momentos, no passado, no presente e no futuro.
Qual o papel do câmbio na economia brasileira? Atrair investimentos, ajudar o exportador? No cenário atual, como o câmbio ajudaria mais?
Estamos vivendo um momento muito delicado. Você pode cometer dois erros. Usar o câmbio de novo para combater a inflação, como fizemos por muito tempo, com prejuízo gravíssimo para a indústria, ou deixar o câmbio disparar. Acho que temos reservas e condições de impedir que as duas coisas aconteçam. O problema maior é que, se você deixou valorizar, a desvalorização depois é muito dolorosa.
Em que sentido?
Se você deixa valorizar, você muda, por exemplo, o fornecimento de componentes para as empresas, que reestruturam seus fornecedores por causa da mudança de preço relativo. Você passa para fora. Quando o câmbio se desvaloriza, você dá um choque inflacionário. O câmbio valorizado para um país que ainda está em processo de desenvolvimento e industrialização é mortal. Nos últimos 20 anos, a maior parte do tempo passamos com o câmbio valorizado. O resultado está aí na cara das pessoas. Se você sentar com qualquer industrial, ele vai te dizer que o problema é o câmbio.
Então o câmbio agora está fora do lugar?
Belluzzo: O governo na verdade foi saindo daquele perto de R$ 1,76, e foi subindo, e botou em R$ 2. A desvalorização real foi muito menor, por causa da inflação. Agora, a pior coisa que você pode fazer é tentar dar um choque para cima no câmbio, você tem que ir administrando isso com muito cuidado, dando sinais de que você não vai permitir que ele se valorize mais. A autoridade econômica tem que pensar no longo prazo, é claro que o mercado pensa no curto. É claro que não faz sentido agora, no momento que você tem esse choque inflacionário, chutar o câmbio, desvalorizar agressivamente. Mas tampouco faz sentido você valorizar e prejudicar muita gente que estava exportando e parou de exportar.
No nível em que está agora, o sr. acredita que existe equilíbrio?
Eles não deviam ter deixado ir a R$ 1,95. Por quê? Não precisava. Eles deviam ter mantido em R$ 2, segurado o câmbio lá. Não era difícil fazer. Se fosse o caso, esperar um pouquinho e mover para R$ 2,10. Infelizmente, não existe solução mágica nesses casos. Você vai ter que administrar o conflito entre objetivos. Um objetivo é do câmbio enquanto categoria monetária, o outro enquanto categoria real. O câmbio não é um preço como outro qualquer. Não é igual o preço da banana, como disse outro dia um ex-presidente do Banco Central. O preço da banana afeta os consumidores de banana. Já o preço do câmbio afeta os produtores e os consumidores de tudo. Seria mais fácil administrar esses conflitos com o câmbio perto de R$ 2, R$ 2,10. Acho que estava indo bem com R$ 2, R$ 2,10.
E dá para consertar agora?
Agora tem que consertar, né? O que você não pode deixar é a indústria exposta a isso. Não devia ter deixado valorizar. Devia ter mantido ali. Porque vem um cara e diz que tem câmbio fixo. Não é câmbio fixo, tem uma flutuação administrada. Como se o câmbio flutuante fosse uma coisa não problemática. É problemático sim, para países que têm moeda não conversível, porque fica sujeito a movimentos de valorização e desvalorização, que são movimentos tipicamente especulativos. Tem sim que intervir no mercado de câmbio, é normal que intervenha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário