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Homem controlou o fogo há 400 mil anos

Estudo de indícios antigos da presença humana na Europa questiona consenso de que hominídeos dominavam o fogo há 2 milhões de anos

15 de março de 2011 0h 00
Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo

Os humanos só controlaram o uso do fogo há 400 mil anos. É o que afirma um estudo científico divulgado ontem que questiona o consenso sobre o tema. Até agora, acreditou-se que os primeiros hominídeos já usariam fogo há 2 milhões de anos para preparar alimentos e se aquecer.

A confecção de ferramentas de pedra e o controle racional do fogo - para cozinhar, aquecer-se e prolongar a duração do dia - são considerados marcos importantes da evolução humana.

O artigo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), coloca em xeque uma teoria que alcançou notável prestígio nos últimos anos. O arqueólogo Richard Wrangham, de Harvard, relacionou a evolução humana ao hábito de cozinhar alimentos.

Segundo o pesquisador americano, há 2 milhões de anos o Homo erectus teria aprendido a cozinhar, hábito que facilita a digestão dos alimentos. A energia economizada pelo sistema digestivo teria servido então para turbinar o cérebro, acelerando a evolução humana.

Além disso, ainda de acordo com a teoria de Wrangham, o hábito de se alimentar ao redor de uma fogueira teria desenvolvido a sociabilidade das primeiras comunidades primitivas.

O arrazoado virou livro - Pegando Fogo - Como Cozinhar Nos Tornou Humanos -, mas pesquisadores da Universidade Leiden, na Holanda, e da Universidade do Colorado, em Boulder (EUA), decidiram verificar se as descobertas arqueológicas dos últimos anos confirmavam a teoria. Concluíram que, apesar de convincente à primeira vista, a tese de Wrangham não possui parentesco com a realidade dos registros pré-históricos.

Frio europeu. Os pesquisadores procuraram evidências do uso de fogo por humanos na Europa. Acreditava-se que a conquista do continente estaria condicionada ao domínio da tecnologia do fogo: só com uma boa fonte de calor e luz os humanos conseguiriam deixar o ambiente tropical africano e sobreviver às latitudes mais frias do clima temperado no norte. Os dados contrariaram as expectativas.

Os registros mais antigos da presença humana na Europa datam de 1 milhão de anos atrás e estão todos na região sul do continente. Contudo, há fortes indícios no norte, em Happisburgh (Inglaterra), de que humanos já estavam adaptados ao clima frio há 800 mil anos - porém sem o uso do fogo como fonte de calor.

Os registros arqueológicos só apareceram 400 mil anos depois. Os mais antigos estão em Beeches Pit, na Inglaterra, e Schöningen, na Alemanha: pedaços de madeira tostada, pedras e sedimentos derretidos, além de indícios de fogueiras.

Os autores do trabalho também induzem provas baseadas em testemunhos negativos: sítios arqueológicos mais antigos de diversos países - Rússia, Bulgária, Itália, Espanha e França -, muito bem protegidos dentro de cavernas, não apresentam qualquer sinal do uso de fogo por seres humanos.

Ao ser questionado, Wrangham preferiu evitar polêmicas. "O trabalho representa um caso clássico de discordância científica", afirmou o pesquisador. "Enfim, temos um quebra-cabeças encantador."

COM AP

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