Pular para o conteúdo principal

Xisto pode "energizar o mundo", mas chegaria ao Brasil só em 2023

Por Paula Furlan

Os combustíveis alternativos vêm sendo amplamente debatidos como forma de promover o consumo sustentável e evitar o esgotamento de determinadas fontes. O gás de xisto é uma destas soluções. O xisto betuminoso é um tipo de rocha metamórfica fonte de combustível que, quando submetido a altas temperaturas, produz um óleo de composição semelhante à do petróleo do qual se extrai nafta, óleo combustível, gás liquefeito, óleo diesel e gasolina.
Os Estados Unidos e Brasil são os países com as maiores reservas mundiais de Xisto. A empresa brasileira Petrobrás desenvolveu o Processo Petrosix ® para produção de óleo de xisto em larga escala.
No debate 'O Xisto, a Geopolítica Energética e a Sustentabilidade', promovido pelo Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), em São Paulo, palestrantes concordaram que o gás não convencional é uma alternativa energética viável para o Brasil, importante para garantir e ampliar a competitividade nacional frente a outros mercados e possível de ser explorado se a gestão dos riscos ambientais for eficiente.
 "Acredito que esta rocha pode energizar o mundo", disse o vice-diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), Colombo Celso Gaeta Tassinar. O recurso natural é encontrado em rochas metamórficas localizadas a partir de 1,5 mil metros de profundidade. "Quanto mais profundas as rochas, maior o potencial."
O gás de xisto - chamado de gás de folhelho ou shale gas pelos especialistas - ganhou visibilidade no País com o anúncio da realização, nos dias 30 e 31 de outubro, do primeiro leilão de blocos pelo governo federal. Por causa da técnica utilizada para sua obtenção - o fraturamento hidráulico -, logo virou alvo de polêmica: também conhecido por fracking, ele envolve a explosão de rochas sedimentares e injeção de grande quantidade de água (cerca de 90%), areia (9%) e reagentes químicos (1%).
Um dos perigos apontados por ambientalistas é de que esse material químico poderia entrar em contato com lençóis freáticos.  "As partes críticas do poço (especialmente as que passam por lençóis) são revestidas com cimento e aço. Além disso, antes de iniciar a operação, é preciso um estudo da área em questão, levantamento ambiental, domínio das técnicas, além da existência de regulação da atividade e um protocolo de segurança", afirmou Tassinar. "A agricultura tem a mesma e até maior probabilidade de contaminação da água e do solo do que o shale gas", exemplificou citando o uso de fertilizantes e agrotóxicos nas plantações.
De acordo com agências internacionais, o Brasil teria pelo menos 6,4 trilhões de m³ de reservas recuperáveis de xisto, o que o coloca na décima posição no mercado mundial. A estimativa, porém, é considerada tímida - acredita-se que o País tenha, ao lado de Estados Unidos e China, as maiores reservas do recurso no mundo.
Segundo especialistas, risco de contaminação por xisto é mínimo. Imagem | The Wall Street Journal.Segundo um estudo da Royal Society, entidade inglesa voltada para a Ciência sobre o xisto, alguns fatos foram descobertos. "Um deles é que o risco para saúde, segurança e meio ambiente podem ser geridos de forma eficaz. Outro, que a propagação das fraturas (geradas no fracking) é improvável causa de contaminação", disse.
Contudo, a produção de gás de xisto no Brasil só será viável em 2023, caso os investimentos comecem a ser feitos já. "Demorará cerca de dez anos para a produção de gás de xisto se tornar viável", disse em seminário realizado em São Paulo. "Se não tivermos investimentos agora, daqui a dez anos não teremos recursos.Dado que toda a infraestrutura tem de ser desenvolvida, espera-se que a produção brasileira esteja disponível para consumo dentro de 10 anos", informou Affonso.
A descoberta de grandes reservas potenciais de xisto nos Estados Unidos, que estuda o gás desde a década de 1990, fez com que a produção do país tivesse grande impulso a partir de 2006. O entusiasmo gerado pela alternativa não convencional provocou uma verdadeira "corrida ao xisto" pelas empresas, o que, em última instância, chegou até a causar a proibição da atividade em alguns estados norte-americanos.
"Apesar do Brasil não ter ainda nenhum poço aberto, podemos aprender com as lições dos Estados Unidos", disse Goldemberg. "Mas temos um caminho longo pela frente, como a obtenção de EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental) em cada Estado". Para ele, um dos pontos mais sensíveis para o projeto de exploração do gás de xisto é o relatório, pois a autorização para exploração do gás em terra passa pelos Estados e não pela União.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Preços de combustíveis: apenas uma pequena peça da destruição setorial

Por José Sérgio Gabrielli Será que o presidente Bolsonaro resolveu dar uma reviravolta na sua política privatista e voltada para o mercado, intervindo na direção da Petrobras, demitindo seu presidente, muito ligado ao Ministro Guedes e defensor de uma política de mercado para privatização acelerada e preços internacionais instantâneos na companhia? Ninguém sabe, mas que a demissão do Castello Branco não é uma coisa trivial, com certeza não é. A ação de Bolsonaro, na prática, questiona alguns princípios fundamentais da ideologia ultraneoliberal que vinha seguindo, como o respeito à governança das empresas com ações negociadas nas bolsas, a primazia do privado sobre o estatal e o abandono de intervenções governamentais em assuntos diretamente produtivos. Tirar o presidente da Petrobras, por discordar da política de preços, ameaça o programa de privatizações, pois afasta potenciais compradores de refinarias e tem um enorme efeito sobre o comportamento especulativo com as ações da Petrob...

O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade: Introdução geral do livro "Por uma outra globalização" de Milton Santos

Por Milton Santos Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido. Haveria nisto um paradoxo pedindo uma explicação? De um lado, é abusivamente mencionado o extraordinário progresso das ciências e das técnicas, das quais um dos frutos são os novos materiais artificiais que autorizam a precisão e a intencionalidade. De outro lado, há, também, referência obrigatória à aceleração contemporânea e todas as vertigens que cria, a começar pela própria velocidade. Todos esses, porém, são dados de um mun­do físico fabricado pelo homem, cuja utilização, aliás, permite que o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido. Explicações mecanicistas são, todavia, insuficientes. É a maneira como, sobre essa base material, se produz a história humana que é a verdadeira responsável pela criação da torre de babel em que vive a nossa era globalizada. Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a criação de um mundo veraz, o que é imposto aos espíritos é um mundo de fabulações, q...

Por uma mídia que ouse ser ética

Por Mariana Martins , no Observatório do Direito à Comunicação: Mais uma vez o que me motiva a sair da inércia para escrever é a nossa mídia, aquela mesma de sempre, ávida pelo lucro e cheia de vaidades. A mídia não é um ser inanimado, ela é feita de pessoas. A mídia é feita, principalmente, de jornalistas que devem receber uma formação para saber, antes de tudo, o que é notícia e o que é espetacularização . Jornalistas que devem sempre optar pela notícia. É uma pena que, em todas as tragédias, nós tenhamos péssimos exemplos da nossa imprensa. As coberturas são traumáticas. A grande maioria tenta logo de saída fazer das tragédias grandes espetáculos. Procuram por parentes, procuram por vítimas, procuram por testemunhas. Pessoas que, por tão intensamente envolvidas, podem não querer colocar mais uma vez o dedo na ferida. Pessoas que estão tendo que prestar depoimentos na polícia e assim por diante. (Esse tipo de fonte deve ser usada com muita cautela e parcimônia; eu diria que em do...