domingo, 30 de março de 2014

UM VERDADEIRO DEBATE POLÍTICO: PSOL X PT

Transcrevo o texto crítico ao PT de Gilberto Maringoni, quadro do PSOL, e a resposta de Valter Pomar, quadro do PT. Ambos são dois valiosos quadros da esquerda. Petistas e psolistas precisam com urgência entender quem são seus verdadeiros inimigos. A resposta de Valter Pomar (PT) vem logo abaixo do texto de Maringoni. Em seguida, tem a tréplica do Maringoni, que é respondida pelo Pomar.
(Rodrigo Viana)

OS ATAQUES DE SETORES DO PT AO PSOL
Por Gilberto Maringoni

  1. Há algumas semanas, setores do PT passaram a atacar de forma violenta o PSOL, sem motivo aparente.
  2. Primeiro foram blogueiros das franjas petistas – que podem ter ligações com o aparato de segurança do governo – como Paulo Henrique Amorim, Eduardo Guimarães e Antonio Lassance. Essa primeira investida tentava vincular a morte do cinegrafista da Bandeirantes, Santiago Andrade, em manifestação pública no Rio de Janeiro, ao deputado Marcelo Freixo.
  3. A manobra saiu pela culatra. Largos setores da sociedade e até mesmo partes do PT se solidarizaram com o parlamentar e repeliram insinuações contra o partido.
  4. De alguns dias para cá, o curto-circuito chegou às redes sociais. Foram ataques articulados.
  5. Primeiro, correntes internas ao PSOL, de forma equivocada, saudaram o golpe de Estado na Ucrânia como sendo uma “revolução”. A responsabilidade da avaliação não é do partido, que não aprovou resolução a respeito, mas dessas correntes minoritárias.
  6. Foi o que bastou para a enxurrada de calúnias vicejar, apontando que o PSOL apoiava o nazismo. Evidente forçação de barra.
  7. Em seguida, um filiado de Cubatão defendeu um golpe militar no Brasil. O indivíduo foi desautorizado pela direção e enfrentará comissão de ética, podendo ser expulso.
  8. De nada adiantou. Para a histeria petista, o PSOL defende um golpe de Estado. Não se dão ao trabalho de ler as resoluções do partido ou ver que vários militantes sofreram prisão, tortura e exílio durante a ditadura. Nada vale. Vale a política do tacape cego.
  9. A catilinária não tem fim. Como diria o barbeiro Porfírio, em O Alienista, de Machado de Assis, “preso por ter cão, preso por não ter cão”. Faça o que fizer, o PSOL, nessa conjuntura será atacado por setores mais exaltados do petismo.
  10. A grande questão é: por que isso acontece agora?
  11. Por um motivo que começa a ficar claro. O PT está sem lugar no espectro político para se apresentar no embate de projetos contra Eduardo Campos ou Aécio Neves, dois representantes da fina flor da direita. Com uma política macroeconômica baseada nos mesmos pressupostos dos dois – juros altos, câmbio valorizado e superávits primários elevados -, o famoso tripé, Dilma tem a exaltar feitos seus e dos governos Lula.
  12. Em 2006 e 2010, tanto Lula como Dilma bateram corretamente na privataria tucana. No entanto, um pequeno detalhe ocorreu.
  13. Nesse meio tempo, o deputado Marco Maia (PT), ex-presidente da Câmara dos Deputados, inviabilizou a CPI da privataria tucana. E o PT no governo adotou como prática a privatização de estradas, portos, aeroportos e de parte do pré-sal. Ou seja, o diferencial pela esquerda acabou.
  14. Dilma faz um governo medíocre. Recebeu um país que crescia a uma média de 4,5% ao ano e o entrega com uma expansão de 2%. Recuou num dos pontos positivos da gestão de seu antecessor, a política externa. Dilma foi omissa em relação á possível invasão da Síria pela Otan, esfriou relações com o Irã, a presença brasileira na Venezuela murchou e seu governo recusou-se a conceder asilo a Edward Snowden.
  15. 15. O PT precisa varrer para baixo do tapete o fato de patrocinar o endurecimento de leis contra as manifestações, o de travar as propostas de regulação da mídia, o de favorecer monopólios com desonerações milionárias etc. O PSOL vem a calhar para isso, pois Dilma precisa se apresentar como a única à esquerda.
  16. Os militantes petistas celerados na rede não atacam o PMDB, o PTB, o PDT, o PP ou o PSC com a fúria que agridem e caluniam o PSOL. Por que?
  17. O PSOL ameaça o PT em votos ou as outras candidatura à direita? Basta ver os financiamentos de 2010. O PT e o PSDB amealharam mais de R$ 100 milhões cada um, em financiamentos de campanha, dinheiro oriundo de bancos, empreiteiras e grandes monopólios. O PSOL não levantou meio centésimo disso. O PSOL teve 1% dos votos.
  18. Então onde a ameaça?
  19. O PSOL mostra que é possível fazer uma campanha pela esquerda. Mostra que é possível agir diferente e pregar isso na campanha.
  20. O PT quer se apresentar na campanha como cobrindo todo o espectro que vai do centro direita á esquerda, alegando ser de esquerda. É vital, nessa fase de campanha, eliminar qualquer ruído nesse espaço político. Pode ser o PSOL, o PCB ou o PSTU. Esquerda vale se for folclórica ou desmoralizada.
  21. Por isso é vital dar uma estocada certeira numa candidatura que mostrará à sociedade brasileira que existem posições à esquerda. É vital para os petistas limpar essa área já.
  22. Para isso, o PSOL será “preso por ter cão e preso por não ter cão”.
  23. Por fim, o óbvio. Não são todos os petistas que fazem isso. Há valorosos quadros de esquerda no partido que já entenderam que o sectarismo é um jogo de soma zero. Ou de soma vários pontos negativos…
  24. Em tempo: o PSOL não é antipetista. O PSOL quer construir uma alternativa à esquerda do PT. O inimigo a ser combatido e derrotado é a velha direita brasileira.

RESPOSTA 1 DE VALTER POMAR
Prezado Maringoni, concordo com a intenção do seu texto (chamar a unidade contra o inimigo comum). Mas acho que o texto, em diversas passagens, não ajuda. E muito respeitosamente gostaria de citar estes trechos que, na minha opinião, concorrem contra o teu objetivo, que também é meu, de garantir a unidade da esquerda contra a direita.

Prezado Maringoni, acho que não ajuda dizer que “blogueiros das franjas petistas” como Paulo Henrique Amorim, Eduardo Guimarães e Antonio Lassance “podem ter ligações com o aparato de segurança do governo”. Primeiro, porque é irrelevante: conheço centenas de petistas sem nenhuma ligação com o governo e que fizeram críticas duríssimas ao PSOL em função dos fatos citados. Segundo, porque trata-se de uma especulação totalmente sem fundamento. Terceiro, porque –ao menos para quem é da tradição da esquerda– este tipo de insinuação envenena o ambiente, quando o teu objetivo deveria ser distensionar o ambiente entre PT e PSOL, certo?

Gilberto Maringoni, sempre reiterando que estou de acordo com a tua intenção, prossigo criticando trechos do teu texto que concorrem contra teu próprio objetivo. Você fala que há um ataque articulado nas redes sociais. Olha, para que houvesse um ataque articulado, seria necessário que algumas pessoas estivessem envolvidas, por exemplo, o dirigente nacional do PT responsável pelas redes, mais alguns blogueiros que têm atuado profissionalmente no Partido. E estas pessoas não estão envolvidas em nada disto. Portanto, não há ataque articulado no sentido que você parece dar ao termo. O que existe, tanto no PT quanto no PSOL, quanto em qualquer partido, em se tratando de redes sociais, é a movimentação de centenas de pessoas que pensam mais ou menos parecido, sem que haja “articulação” no sentido de “direção superior”. O problema é que você subestima a irritação que o PSOL, ou setores do PSOL, causaram ao PT nos últimos anos. É óbvio que quando pinta uma “deixa” (Ucrânia, ditadura ou o que seja), vão aparecer muitas pessoas que aproveitam a oportunidade para fazer suas críticas.

Gilberto Maringoni, novamente reiterando que estou de acordo com a intenção de unidade contra a direita, a verdade é que há passagens em seu texto que colocam em questão qual é mesmo o objetivo dele (texto). Por exemplo: você minimiza as posições de um filiado em relação ao golpe. Diz que ele pode ser expulso. Espero que seja. Você também minimiza a posição de setores do PSOL no caso da Ucrânia. Buenas, espero que o PSOL tome uma posição boa a respeito. Mas logo em seguida você passa a explicar os motivos pelos quais setores do PT estariam histéricos, atacando o PSOL. E segundo você uma razão é que “o diferencial pela esquerda acabou”. Veja, meu caro: se você acha que o PT não é mais de esquerda, não faz sentido algum você querer a solidariedade do PT, ou da maioria do PT. Aí, sinceramente, eu acho que você precisa escolher uma linha de análise. Não dá para pedir apoio e ao mesmo tempo escrever o que está em passagens do seu texto. Não acho, sinceramente, que é compatível.

Gilberto Maringoni, sempre repetindo que é importante unidade da esquerda, eu concluo os comentários críticos ao teu texto dizendo que trechos inteiros dele são uma demonstração de que o PSOL é sim antipetista. Surgiu do PT e contra o PT. E trabalha com a ideia de que é possível derrotar, ao mesmo tempo, a direita e o PT. Espero que esta postura mude. Espero que no segundo turno de 2014 o Randolfe faça aquilo que a Heloísa Helena e o Plínio não fizeram: apoiar a candidatura do PT contra a direita. Aliás, é esta pergunta que eu deixo para voce: na hipótese de ocorrer segundo turno, na hipótese de Dilma estar lá contra Aécio ou contra Eduardo Campos, na sua opinião o PSOL deveria apoiar Dilma? Pois é isto que vai demonstrar que você mesmo acredita no ponto 24 do seu texto.

Um abraço,  Valter VR Pomar

Neste post reproduzo a tréplica de Maringoni, no próximo a resposta de Valter Pomar, a ‘quadréplica’. Quem sabe ao lê-los os militantes de ambos os partidos que não raramente se excedem em agressões aprendam a divergir com civilidade.

UM DEBATE COM VALTER POMAR
Meu amigo Valter Pomar, do PT, escreveu respeitosamente, contestando mensagem por mim postada aqui há dois dias.

Valter é um ótimo interlocutor. Segue aqui minha resposta. Pode ser do interesse de pouca gente, mas não posso deixar de publicar aqui.

Caro Valter, espero que você esteja bem.

Somente agora posso responder às suas mensagens.

Novamente agradeço a atenção e o tom respeitoso de suas réplicas.

Não é algo de menor importância.

O que menos contribui para qualquer debate – especialmente naqueles que buscam pontos de contatos nas idéias – é o tom de valetudo que muitas vezes se espalha pela rede.

Tenho afinidade com várias de suas concepções. Penso até que na seara internacional nunca tivemos algum tipo de diferença. Falamos a mesma língua.

Nossas discrepâncias estão na política interna, especialmente no papel do PT. Eu não acho que o ciclo histórico do partido tenha se esgotado. Você também não.

A divergência está em ver o PT como pólo transformador e veio principal para a rearticulação da esquerda socialista brasileira.

Essa possibilidade é praticamente inexistente hoje. Se em quase 12 anos e em situações de aceleração econômica o partido não fez isso, não o fará num cenário de retração da economia mundial.
Dito isso, confesso que não consegui ser breve nesta mensagem.

Ainda assim, minhas opiniões seguem abaixo.

1. Você diz que minha afirmação sobre “blogueiros das franjas petistas – que podem ter ligações com o aparato de segurança do governo – como Paulo Henrique Amorim, Eduardo Guimarães e Antonio Lassance” é uma especulação sem fundamento.

Sinto, mas prefiro manter minha desconfiaça alerta. Em junho do ano passado, tive uma ácida discussão com Guimarães aqui pelo FB. Antes dos black blocs começarem suas arruaças, quando havia poucos provocadores nas manifestações, Guimarães afirmou que os manifestantes portavam coquetéis molotov nas mochilas. Eu o desafiei a provar a afirmação. Ele demorou, demorou e depois me apareceu com a declaração do comandante da PM, dada a um jornal, para corroborar sua sentença. Denunciei imediatamente que ele – ausente dos atos – se valia da palavra da polícia para comprovar suas acusações.

Amorim, por sua vez, em 27 de janeiro deste ano, sapecou em seu blog uma manchete digna de nota: “Não vai ter Copa é um movimento terrorista!”. Deploro a palavra de ordem “Não vai ter Copa”. Mas chamar o movimento de terrorista significa adentrar um terreno perigoso.

Pois logo em seguida, setores da direita no Congresso – alguns da base aliada e pelo menos um senador petista – começaram a articular a aprovação da lei antiterror.

Já Lassance, em 11 de fevereiro, soltou uma pérola, na Carta Maior: “A conivência do PSOL com os black blocs”. Talvez este tenha sido o pior. Deu a senha – ou a “linha”, como se dizia em outros tempos – para os destrambelhados ataques da Globo e da direita contra nosso partido e, em especial, contra Marcelo Freixo.
Foi o que bastou para que Alckmin, ato contínuo, desatasse aquela ação alucinada do batalhão Ninja, elogiada pelo ministro Cardozo e pelo prefeito Haddad.

Se não há articulação entre essas pessoas, setores da direita e os órgãos de segurança, então as coincidências entraram numa conjunção astral extremamente singular.

De minha parte, prefiro manter minha desconfiança ligada.

2. Realmente não há uma articulação com dirigentes do PT envolvidos. E eu nem falei isso. Ressaltei que se tratava de setores nas “franjas” da agremiação. Aliás, o PT do Rio, o senador Lindberg Farias e o ex-ministro José Dirceu, entre outros, tiveram um comportamento exemplar ao externarem solidariedade ao PSOL.

3. Você fala que “O problema é que você subestima a irritação que o PSOL, ou setores do PSOL, causaram ao PT nos últimos anos. É óbvio que quando pinta uma “deixa” (Ucrânia, ditadura ou o que seja), vão aparecer muitas pessoas que aproveitam a oportunidade para fazer suas críticas”. Aqui você pode ter razão. Eu, por exemplo, acho que o PSOL deveria se solidarizar com os réus da AP 470.
Mas isso é parte da história. Entendo muitos camaradas do PSOL em sua antipatia ao PT. Nosso partido surgiu quando o PT expulsou quatro parlamentares – Heloísa Helena, Babá, Luciana Genro e João Fontes – que se recusaram a votar na reforma neoliberal da Previdência, em 2003.
Convenhamos, querer que companheiros tratados dessa forma passem uma borracha no passado e vejam o PT como a oitava maravilha é algo difícil. Daí vários dos ataques do PSOL ao PT.
Eu, pessoalmente, não faço política com o fígado e não acho essa a melhor conduta. Mas entendo o que se passa. E também não subestimo a bronca que alguns petistas têm do PSOL.
Mas todo mundo é crescido, Valter. Se ficarmos nessas – de administrar os potes até aqui de mágoas – não avançamos.

4. Não minimizo as posições de um filiado do PSOL sobre golpe e nem a de um agrupamento sobre a Ucrânia. Assim como você não pode minimizar a política macroeconômica abertamente liberal do governo petista, as ações de gente como Paulo Bernardo, Gleisi Hoffmann, José Eduardo Cardozo, a manutenção da política privatista, os favores dados ao grande capital ou o fato de o PT ser vice na prefeitura do Rio, que trata os garis como estamos vendo nesses dias, para ficarmos em poucos fatos.

5. Aqui está o busílis da questão. Devemos colocar o debate no ponto certo, na política e não na moral ou nas mágoas.

6. O que petistas têm feito pela rede? Tomado manhosamente a parte pelo todo. O filiado que quer um golpe já vira a posição do PSOL. A nota de uma corrente sobre a Ucrânia já se torna a deliberação oficial do PSOL sobre o tema. Esse é um ataque em bloco.

7. Não faço isso com o PT. O ciclo petista não se esgotou. Mas a possibilidade de o PT conduzir transformações mais profundas na realidade brasileira não me parece muito alentadora, não.

8. Agora, repito sempre: o PT pode não ser de esquerda. Mas o antipetismo é sempre de direita. Os governos petistas são muito diferentes e melhores daquilo que os do PSDB e do que o resto da direita fez. Isso não quer dizer que tenham sido gestões de esquerda. Uma das maiores provas disso é o fato de você – um dos melhores e mais preparados quadros da esquerda brasileira– sequer ter sido cogitado para exercer função decisiva nas administrações de Lula e Dilma.

9. No fim, você me faz uma saudável provocação: “Na hipótese de ocorrer segundo turno, na hipótese de Dilma estar lá contra Aécio ou contra Eduardo Campos, na sua opinião o PSOL deveria apoiar Dilma?”.
No segundo turno de 2006, 2010 e 2012 (prefeitura de SP), votei no candidato petista contra a velha direita. Não foi fácil, mas era a única opção, pois sei o que é a direita brasileira e estou vendo o cenário mundial.

Espero não repetir esses votos.

O motivo é simples: quero votar em Randolfe Rodrigues no segundo turno.

Nunca anulei meu voto. Sempre votei contra a direita.

Forte abraço,

Gilberto Maringoni

PsS. Não ataco o PT em bloco. Ataco sua direção e o PT realmente existente no governo federal. Se, por acaso alguma passagem de meu texto deixa transparecer um ataque genérico, isso é fruto de minha má redação.

PARTE 3: A “QUADRÉPLICA” DE POMAR
Resposta ao Maringoni

Para aqueles que não acompanharam os lances anteriores: o Gilberto Maringoni escreveu um “post” criticando setores do PT que atacam o PSOL.

Eu respondi a este post (interessados podem ler os dois textos no blog da Mariafro).

Maringoni escreveu uma tréplica, intitulada: UM DEBATE COM VALTER POMAR.

O que segue é minha resposta a esta tréplica.

Prezado Maringoni, como vai?

Espero que bem, como diziam nossos velhos.

Isto posto e indo ao primeiro ponto: é fato que temos concepções afins. Como você, “penso até que na seara internacional nunca tivemos algum tipo de diferença. Falamos a mesma língua”.
Mas se é isto, e acho que é exatamente isto, me surge a seguinte questão: por qual motivo você não aplica, ao governo Dilma, o mesmo metro, a mesma medida, que você aplica ao analisar o papel do Putin na crise recente da Ucrânia?

Explico, dando um exemplo desagradável: uma das correntes do PSOL, creio que a CST, divulgou uma análise comemorando a vitória da revolução popular na Ucrânia. Acho a posição deles “peregrina e mostruosa”, para citar nosso velho preferido. Mas apesar disto, acho que a CST é coerente: eles aplicam o mesmo metro, o mesmo critério, tanto aqui quanto lá.

Antes que você diga que nisso reside o erro deles (aplicar o mesmo método para situações concretas distintas), deixe eu esclarecer com mais precisão o que eu quero dizer: acho que a CST, tanto aqui quanto lá, adota um critério maximalista, “tudo ou nada”, que os leva a desconsiderar o papel do imperialismo, que os leva a achar que “tanto faz que ele seja inimigo do meu inimigo, continua sendo meu inimigo do mesmo jeito” etc.

Trazendo para nosso quintal: objetivamente, a existência do governo Dilma (assim como a existência do governo Lula) é um ponto de apoio para processos muito mais avançados que estão em curso na América Latina.

Como diziam algumas correntes em relação a URSS nos anos 70: tratava-se de um aliado objetivo (mesmo quando adotava políticas internas ou externas incorretas).
Também objetivamente, não existe no horizonte a menor possibilidade do governo Dilma ser substituído por um governo do PSOL, ou do PCB, ou do PSTU, ou do PCO. Assim, a questão é: quem luta para derrotar o governo Dilma opera, objetivamente, mesmo que não queira, mesmo que não seja este o seu desejo, na mesma frequência de rádio do imperialismo.

Portanto, não acho que seja correto você dizer que “nossas discrepâncias estão na política interna”. Elas não estão apenas na política interna.

Vamos agora ao segundo ponto: você diz que nossas discrepâncias estariam “especialmente no papel do PT”.

Veja: aqui há um detalhe sutil sobre o qual eu gostaria de chamar sua atenção, muito respeitosamente. Acho que você, quase sem perceber, trata PT e governo como se fossem coisas iguais.

Você diz assim: “não acho que o ciclo histórico do partido tenha se esgotado”.

E logo em seguida diz que a “divergência está em ver o PT como pólo transformador e veio principal para a rearticulação da esquerda socialista brasileira”.

E ato contínuo afirma que “essa possibilidade é praticamente inexistente hoje. Se em quase 12 anos e em situações de aceleração econômica o partido não fez isso, não o fará num cenário de retração da economia mundial”.

Opa: nesta última frase, o critério utilizado para julgar o Partido é a ação do governo. Eu acho que esta interpretação é parcialmente válida, mas não esgota o problema.

Compreendo que aqueles que criticam o PT queiram julgá-lo pelas contradições, insuficiências e equívocos cometidos pelos governos Lula e Dilma.

Como disse, acho que é um critério parcialmente válido. Mas o PT não é apenas isto, apesar dos esforços que setores do próprio PT fazem no sentido de converter o Partido em “correia de transmissão” do governo.

De toda forma, como a confusão teórica anda instalada na esquerda brasileira, deixa eu ser mais claro acerca do que estou querendo dizer.

Existe uma disputa na sociedade brasileira, entre dois caminhos de desenvolvimento: o caminho conservador e o caminho democrático.

Ambos são caminhos capitalistas. A diferença é que o caminho conservador preserva, conserva, os padrões que caracterizaram a maior parte da história brasileira: a dependência externa, a falta de democracia e a desigualdade social. Já o caminho democrático busca alterar estes padrões, no sentido de mais soberania, mais democracia e mais igualdade.

Na história do Brasil, o caminho conservador sempre foi estrategicamente vitorioso, apesar de derrotas táticas, momentâneas. E o caminho conservador sempre foi vitorioso porque a classe dominante brasileira nunca se dividiu seriamente a este respeito: nos momentos de crise, nos momentos em que seria possível fazer uma revolução democrática, o conjunto da classe dominante, ou praticamente toda ela, cerrava fileiras em favor do caminho conservador e impunha derrotas ao caminho democrático.

A conclusão é: para que o caminho democrático prevaleça, a classe trabalhadora precisa assumir sua vanguarda. E isto implica em entender que a classe dominante, como um todo, é nossa inimiga. E implica em entender, portanto, que um caminho democrático para o Brasil só terá êxito se for, também, um caminho de tipo socialista.

O Partido dos Trabalhadores, nos anos 1980, entendia isto. Mas desde 1990, veio crescendo dentro do Partido um setor que acredita na possibilidade de uma aliança estratégica entre os trabalhadores e uma parte da classe dominante.

Enquanto éramos oposição, isto era apresentado como sabedoria eleitoral. Agora que somos governo, é apresentado como necessário para a governabilidade. Mas a outra face disto são as mudanças parciais e o risco de retrocesso.

É nesta armadilha histórica que estamos: melhoramos a vida do povo, mas governamos o país em aliança com setores da classe dominante, fazemos concessões importantes a setores da classe dominante.
Se perdermos o governo, será um retrocesso.

Se ganharmos nas mesmas condições, continuaremos na mesma armadilha: sem reforma política, sem democratização da mídia, sem reformas estruturais etc.

Qual a resposta do PSOL para isto? Ou melhor, qual a conclusão que você tira deste quadro?

Tomando como base o que você diz na tua carta: “é praticamente inexistente” a “possibilidade” do PT ser “o PT como pólo transformador e veio principal para a rearticulação da esquerda socialista brasileira”, pois se “em quase 12 anos e em situações de aceleração econômica o partido não fez isso, não o fará num cenário de retração da economia mundial”.

Com todo o respeito, este tipo de análise me recordar uma citação do Giorgy que você me enviou, uma vez, explicando por qual motivo a posição do Trotsky nos anos 1920 estava equivocada.

Veja: podemos mudar o Brasil (a favor da classe trabalhadora) com o PT. Sem o PT e contra o PT, ao menos no tempo de nossas vidas, considero impossível.

O que pode ocorrer, sem o PT e/ou contra o PT, é uma mudança para pior. Uma mudança contra os interesses da classe trabalhadora. E é este, na minha opinião, o risco que se abate sobre o PSOL e sobre todos os partidos da “esquerda da esquerda”.

O desdobramento patético deste risco é um texto que li, de alguém da CST tendência interna do PSOL, sobre a “revolução” na Ucrânia. Neste texto o cidadão comemora a ocorrência de uma revolução popular, dirigida por neoliberais e nazistas. E que agora o desafio é levar a revolução para a esquerda…
Guardadas as proporções, é isto que se imagina para o Brasil pós-PT? Com o PT derrotado, com a direita no governo, implementando programas que vão deixar clara a diferença entre nós do PT e eles da oposição neoliberal (Eduardo, Marina e Aécio), aí a “esquerda da esquerda” vai trabalhar para levar o país para a esquerda?

Como você vê, tampouco consegui ser breve na resposta. Mas acredito que consegui deixar claro o tamanho das nossas divergências, que explicam o fato de termos militando juntos no PT até o início de 2005, depois do quê você apoiou a candidatura do Plínio de Arruda Sampaio e depois saiu do PT rumo ao PSOL.

Registre-se: você e outros saíram entre o primeiro e o segundo turno das eleições internas do PT. Provavelmente, se vocês tivessem permanecido, a esquerda teria vencido a presidência do Partido.
Mas eu compreendo: como HOJE a “possibilidade” de fazer do PT um “polo transformador” é “praticamente inexistente”, por qual motivo ONTEM vocês deveriam ter ajudado a esquerda a vencer a disputa interna do PT?

Para concluir, alguns comentários breves sobre tuas opiniões numeradas.

Opinião 1: você acusou Amorim, Eduardo e Lassance de “ligações com o aparato de segurança do governo”.

Agora você apresenta teus indícios disto: Eduardo teria citado uma “declaração do comandante da PM, dada a um jornal, para corroborar sua sentença”. Amorim no dia 27 de janeiro teria chamado o “Não vai ter Copa” de “terrorista” e ato contínuo setores da direita no Congresso começaram a “ articular a aprovação da lei antiterror”. E Lassance escreveu sobre a “A conivência do PSOL com os black blocs”, depois do que Alckmin e outros patrocinaram a barbárie.

Desculpe, Maringoni, mas nada disto permite você acusar alguém de ter “ligações com o aparato de segurança”.

Você está criticando opiniões políticas. Não é preciso ter ligações com o aparato de segurança para citar uma declaração de um policial, para considerar o não vai ter Copa como terrorista ou para falar das ligações do PSOL com os Black Blocks. E o aparato de segurança controlado pela direita não precisa de pretextos, nem de instruções de gente de esquerda, para fazer o que está fazendo.

Respeitosamente, acho que você pesou a mão. E faria melhor em reconhecer isto. Manter a desconfiança ligada é um dever; alardear esta desconfiança, sem que haja embasamente sólido, é uma estultice, no mínimo.

Opinião 3: de fato somos todos crescidos. Mas a “bronca” de setores do PT contra o PSOL, ou contra setores do PSOL, não é um problema de “mágoa”, nem tem relação com a AP 470.

Lembro que no segundo turno de 2006 Heloísa Helena não apoiou Lula. Lembro que no segundo turno de 2010 Plínio não apoiou Dilma. Lembro que em 2012, na eleição de São Paulo capital, Plínio disse que Serra era melhor que Haddad. Neste último caso, recordo que o PT fez de tudo para eleger o Edmilson prefeito de Belém no segundo turno. Mas a recíproca não foi verdadeira.

Não se trata de mágoa: na prática, nos momentos decisivos, a postura do PSOL tem sido derrotar o PT.

Opinião 4: eu não minimizo as ações erradas de Paulo Bernardo, Glesi Hoffmann e Cardozo.

Como você sabe, não apenas eu, mas a tendência de que faço parte, sempre fez uma crítica dura, tanto a pessoas quanto a ações que contradizem nosso programa. Por exemplo a presença do PT na vice do Eduardo Paes, contra a qual nos posicionamos desde sempre. But, aqui há duas diferenças importantes a considerar. A primeira é que o PSOL se propõe a superar o PT. Logo, espera-se dele uma coerência superior, certo?

A segunda diferença importante diz respeito ao que você diz sobre a “política macroeconômica abertamente liberal do governo petista, a manutenção da política privatista, os favores dados ao grande capital”. Por partes.

Sou contra os subsídios sem contrapartida. Mas acho impossível (e acho que você também acha isto) que um governo de esquerda, na atual correlação de forças mundial e nacional, não faça algum tipo de “negócio” com o grande capital. Vice Cuba, vide Venezuela etc.

Acho que uma parte dos que criticam o governo petista por fazer “favores ao grande capital” acreditam que é possível expropriar o conjunto do grande capital. Por isto acho indispensável que deixemos claro no que acreditamos. Eu acho que é possível e necessário submeter o grande Capital, mas isso exige pau e cenoura. Não apenas pau.

Sou contra as concessões e acho que o leilão do pré-Sal foi um erro. Mas não acho que se trata de “manutenção da política privatista”. Não é a mesma política adotada pelos governos tucanos. Por exemplo: leia a excelente entrevista do Estrela na Folha de S.Paulo, onde ele critica o leilão e ao mesmo tempo mostra as diferenças.

Aliás, um dos erros do governo foi exatamente este: permitir que a direita diga que se trata da “manutenção da política privatista”, que é tudo igual. Eles sabem que não é, tanto é que forçaram a mão para derrubar as licitações feitas nas regras estabelecidas pelo governo. Mas dizem de público que é, por razões políticas.
E, para não dizer que não falei de flores: você afirma que a “política macroeconômica” do “governo petista” é “abertamente liberal”.

Não acho que o governo Dilma seja petista, nem que os governos Lula tenham sido “petistas”: governo de coalizão com partidos de esquerda, centro e direita é uma coisa, governo petista é outra coisa. Mas admitamos, para facilitar o debate, que seja como você diz.

O interessante na tua frase é que você diz que a política do governo é “abertamente liberal”. Ora, ora… terá sido um erro de digitação ou você reconhece que não se trata de uma política abertamente neoliberal?
Pois este é o ponto: a política dos governos FHC foi neoliberal. A política dos governos encabeçados pelo PT (embora não petistas) não foi neoliberal. O que foi, então? Liberal? Desenvolvimentista? Em disputa? Aqui cabe um debate, mas neoliberal é que não foi.

Opinião 6: você reclama que petistas tem “tomado manhosamente a parte pelo todo”, acusado o PSOL de conjunto por atos de indivíduos ou de setores do PSOL. E diz que você não faz “isso com o PT”. Buenas, você há de convir que a maior parte do PSOL também “toma a parte pelo todo”.

Opinião 9: você evidentemente fugiu de responder. Minha questão não é sobre o teu voto. Minha questão é sobre como agirá o PSOL, como partido, na hipótese do segundo turno de 2014, caso tenhamos Dilma contra Eduardo ou Aécio.

Por fim, quanto a opinião 8: nunca confie num cartunista, ele sempre acaba apelando para uma caricatura.
Na tua opinião 8, você diz que uma das “maiores provas” de que os governos petistas não foram/são de “esquerda” é que “um dos melhores e mais preparados quadros da esquerda brasileira– sequer ter sido cogitado para exercer função decisiva nas administrações de Lula e Dilma”.

Meu caro, se eu fosse mesmo tudo isto, você estaria no PT, na Articulação de Esquerda. Se nem você aceita minha orientação, por qual motivo o Lula e a Dilma me dariam importância???

Ademais, para ser honesto, uma vez fui indiretamente consultado a respeito. Pedi a presidência do Banco Central. Como não tive resposta, preferi ficar na direção do Partido, que para mim continua sendo muito mais importante que estar no governo.

Abraços e um bom domingo

Valter Pomar

Nenhum comentário:

Postar um comentário